Futuro incerto do “papel jornalístico”

Estratégias para vender o produto no ambiente virtual e demissões são o retrato atual

futuro do impresso

Futuro Jornalismo Impresso. Foto: José Pinheiro

José Pinheiro

Os últimos anos estão marcados para sempre na vida dos jornalistas brasileiros, demissões e uma decadência profunda no meio impresso vem tomando conta dos rumos jornalísticos. Após anos de glórias e poderio sobre a mídia, jornais de grande renome, como Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo, realizam inúmeras demissões, neste ano, cerca de 10 jornalistas já foram dispensados do jornal O Estadão, com isso a demanda de material para outros jornalistas aumenta, mas também assusta, pela inconstância de ações.

O mês de março marcou a história do jornal pela queda do caderno semanal de esportes, a partir de uma data ainda não determinada, somente nos domingos ele está sendo rodado, tudo isso após 140 anos de publicações constantes.

O período não está nada favorável aos antigos “Lobos das Redações Impressas”. Com o atual crescimento da internet em todo mundo, a rede de notícias passou a ser extremamente veloz, não mais precisa, mas sim mais rápida, a saturação no mundo jornalístico, rodeado de notícias é muito grande, em um dia com 24 horas temos fatos importantes acontecendo a cada minuto, sem contar os grandes desastres ou tragédias factuais, que circundam as capas dos principais portais de notícias da internet. Que podem ser modificados a qualquer segundo, dada a velocidade da rede. O que é impossível no impresso.

Vivemos em uma era marcada pela rede de rápido compartilhamento, do jornalismo colaborativo, onde todos e a todo momento reportam noticias e acontecimentos. Com isso, blogs e perfis em redes sociais são utilizados para expor um mundo vivido e visto por cada um.

Com todos estes acontecimentos, vemos quase por fim o início de assinaturas de revistas e jornais, o investimento em marketing pelas grandes mídias impressas pode ser visto quando recebemos ligações, que chegam até duas ao dia, por atendentes de telemarketing, treinados e prontos para fechamentos de contratos ali mesmo, pelo telefone, assim, oferecem promoções para assinatura, que agora se estendem também para a internet, um exemplo podemos conferir quando algumas matérias que circulam pela rede têm seu conteúdo travado e somente liberado para assinantes do impresso

do impresso para web

Do impresso para a web.Foto: José Pinheiro

Todos os anos o número de assinantes cai vigorosamente, segundo uma publicação do jornal americano “The New York Times”, os números sofreram quedas em até dois dígitos, alguns dos veículos famosos que circulam nos EUA, como a revista Vanity Fair e New Yorker, tiveram quedas de 17 a 19%, essas revistas e outras de moda, foram atingidas e muito, já que os leitores podem encontrar o mesmo material na internet, muitas vezes até mesmo sem procurar, somente abrindo os portais.

Segundo o site do Observatório da Imprensa, as expectativas de crescimento do imprenso em jornais de países emergentes caíram, pois o que seria equivalente as quedas das vendas em países desenvolvidos, tirou os objetivos das grandes editorias, como exemplo, o próprio Brasil. O site ainda relata que, os membros do IFABC em 23 países venderam 123,5 milhões de jornais por mês em 2011, quase 2 milhões a menos que em 2010, uma queda de 1,6%. Quase todos os países incluídos nas estatísticas reportam queda.

Ainda segundo o site, os países que tiveram maior queda nos anos de 2010 e 2011 foram: Romênia, Espanha, República Tcheca, India e China, esses países marcaram quedas de até 29% em suas circulações, como é o caso da Romênia.

Em entrevista concedida exclusivamente para está matéria o repórter do Bragança Jornal Diário, Gerson Gomes, relata que, “realmente há uma queda de vendas de jornais, consequentemente, demissões também acontecem, a redução da venda de jornais não é de hoje e acredito que é preciso trabalhar em sintonia com a web. Por exemplo: Você tem um jornal e o site deste jornal (como os grandes jornais – O Globo, Estadão, Folha e seus sites). As informações chegam primeiro na internet, devido à velocidade, rapidez, etc, e no dia seguinte está no jornal impresso, com informações mais encorpadas, gráficos, índices, entrevistas, etc. Mas para isso precisa de recurso humano. Acredito que como repórter e vivenciando um momento de crise em que passa o Brasil como um todo, há maneiras de compensar a queda de vendas de jornais. É preciso fortalecer o departamento comercial, ir atrás do “peixe”, pois a maré é baixa.” Ao ser perguntado, sobre o que acredita no futuro do impresso.

O jornalista comenta que, “Sinceramente eu não creio que o jornal impresso ou a revista se extinguirão. Sempre há público, no entanto, é preciso que os diretores de jornais e revistas não estacionem no tempo. É primordial acompanhar a modernidade, tecnologia e o que vem no futuro.”
Gerson também relata que em sua experiência com o jornalismo impresso, após três anos junto ao Bragança Jornal, percebeu nitidamente a queda das vendas a cada campanha de renovação de assinatura, segundo ele, nas bancas, a contagem é mais difícil de ser percebida, pois há dias que vendem mais por conter noticias quentes, principalmente matérias policiais e politicas de grande repercussão.

As demissões são frutos diretos nas quedas de vendas, assim, o ex-assinante de revistas, Miguel Souza, diz que já assinou por dois anos consecutivos a revista Época e comprou diariamente o jornal Agora SP, e que deixou de comprar e assinar há alguns anos, segundo relata: Não tinha mais interesse em compra-los, pois não tinha nada muito mais interessante neles que a televisão não me traga. Sem cobrar nada, diga-se de passagem.”

Miguel ainda diz que: atualmente só compra jornais ou revistas quando tem interesse em algum dado ou publicação que irá sair na revista.

Se o jornal vai acabar, pesquisas relatam que há queda de vendas, mas é impossível prever um fim tão avassalador para o que foi o principal meio de comunicação de massa desde os primórdios de Gutemberg e sua prensa, a questão principal é, para onde caminhará as informações de qualidade com essas quedas e demissões, entrará em cena, com muito mais constância, o jornalismo colaborativo, que hoje, já auxilia nas grandes publicações. Ou seja, uma pessoa, um celular e um fato, já são suficientes para a produção de noticias. enquanto o famoso “passaralho” assombra as redações brasileiras.


O menor jornal do mundo é brasileiro

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Leitura com lupa. Foto: Midia Interessante

 

No dia 18 de agosto de 1935, na cidade de Divinópolis MG, foi fundado o menor jornal do mundo, ele tinha 3.5 cm de altura por 2.5 cm de largura e tinha por nome Vossa Senhoria e seu criador era Leônidas Schwindt.


O maior também é nosso!

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Jornalão: difícil de transportar. Foto: Midia Interessante

 

O maior jornal do mundo também é brasileiro, ele foi criado em Búzios RJ, mais conhecido como Peruzão,  tem por nome Peru Molhado e foi desenvolvido por Aníbal Fernando Henriques Martinho, no ano de 1981, ele mede 37.5 cm de altura, por 30 cm de largura.


Vídeo sobre jornalismo impresso

sso.

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Futuro do jornalismo passa pelas organizações independentes

Criatividade e inovação marcam a nova era da profissão em busca do despendimento com a velha mídia

 Larissa Godoy e Roberta Damiani

Percursora no Brasil, a Agência Pública criou bolsas para a produção de reportagens.  Foto: Catraca Livre

Percursora no Brasil, a Agência Pública criou bolsas para a produção de reportagens. Foto: Catraca Livre

A globalização não apenas culminou o que Marshal McLuhan classificou como “Aldeia Global” como também propiciou o surgimento de um novo e ao mesmo adaptado jornalismo. Com a interação entre produtor e receptor, o jornalismo teve que se adaptar com as novas demandas surgidas com a internet. A maior participação do público nas etapas de produção jornalísticas diminuiu o espaço entre jornalistas e público, mesmo com relutância e imperícia da grande mídia em se modificar nos novos tempos do século XXI.

É inegável que as grandes corporações e empresas ainda se veem no topo da cadeia alimentar jornalística, sendo as responsáveis por agendar os assuntos para a população. Entretanto, contrários a tal prepotência e na tentativa de tirar o melhor proveito das qualidades dos novos tempos, o jornalismo independente propõe ir de encontro a todos os mitos reforçados pelas mídias que regem e ainda clamam o Quarto Poder.

Para Leonardo Sakamoto o maior desafio e motivação é a produção de bom conteúdo. “O mais difícil é produzir conteúdo. Na internet tem uma grande quantidade de blog e site que apenas repercute conteúdo”, disse numa palestra na USP.

O jornalismo independente é um setor ainda em seu estágio inicial, mas que já colhe os frutos de seus trabalhos. A Agência Pública, pioneira no Brasil, com suas reportagens cirúrgicas, coleciona diversos prêmios desde o ano de 2012, como o Prêmio Latinoamericano de Periodismo de Investigación, da Fundación Instituto Prensa Y Sociedad, entre muitos outros. Além de produzir, a Pública busca promover o jornalismo investigativo, através de programas de mentorias para jovens jornalistas. Na agência, os repórteres propõem suas pautas e é com base nas escolhas do público que define-se qual reportagem será feita.

“É disciplina, é reinvenção, é desgaste, é cansaço, é ter ideias. É perceber como irei reinventar meu dia a dia”, disse a jornalista Vanessa Rodrigues durante o encontro realizado pela fundação TEDx em Portugal, onde discutiu-se o futuro do jornalismo independente.

A postura colaborativa em relação ao público mostra por qual caminho o jornalismo independente avança, diferentemente dos grandes veículos que presos a uma filosofia editorial antiquada defendem os interesses pessoais e políticos de seus donos.

Contudo, o jornalismo independente mais do que liberdade editorial, oferece a oportunidade de jornalistas recém-formados praticarem as teorias e técnicas que aprenderam na faculdade, e a de jornalistas veteranos o de renovar suas esperanças na profissão que significa muito mais do que apenas o feito nas enxutas redações. Como dito, o futuro do jornalismo passa pela criatividade e inovação.

Duas características presentes nas agências e coletivos desmistificam a fala de diversos especialistas que há anos afirmam que o leitor está cada vez mais desinteressado em reportagens longas e profundas, e que sim, ele está proposto em pagar para ter um conteúdo exclusivo e bem feito. O meio pelo qual diversos coletivos e agências colhem recursos para a realização de seus trabalhos.

O crowdfunding é utilizado não apenas no jornalismo, mas tem como base o lançamento de projetos independentes, como livros, CDs, entre outros. E o crowdfunding já mostrou resultados positivos no exterior. Na Holanda, a iniciativa do jornalista Ernst Jan-Pfauth com o De Correspondent, é a exemplificação de um espaço bem sucedido no jornalismo independente. Lançado em setembro de 2013, o projeto conseguiu a curto prazo números satisfatórios, com um número inicial de 18.933 assinantes, e num espaço de um ano a totalização de 28.000 assinantes. Sendo que mais de um terço já havia renovado a assinatura de um ano.

O sucesso do De Correspondent, certamente, é decorrência de uma filosofia editorial honesta e transparente. Os holandeses, como disse o criador em seu artigo no Medium (inglês), “Não temos nenhum anunciante para agradar, então podemos focar apenas nas necessidades dos nossos assinantes. Nossos membros deixam claro que eles gostam de saber como nós estamos gastando o dinheiro deles. Isso também leva a algumas discussões interessantes sobre como uma publicação deve priorizar em seus gastos”.

 


 

Fausto Salvadori Filho, jornalista é um dos contribuidores na Agência Ponte Foto: Facebook

Fausto Salvadori Filho, jornalista é um dos contribuidores na Agência Ponte 

Natural de São José do Rio Pardo,  Fausto Salvadore Filho, formou-se jornalista na UNESP de Araraquara no ano de 1999. No ano seguinte mudou-se para a capital para trabalhar em uma empresa de jornalismo em web. Em 2013, ganhou a menção honrosa no prêmio Vladmir Herzog, com a reportagem “Em busca da verdade”, publicada na Apartes – revista da Câmara Municipal de São Paulo. Em seus 15 anos de jornalismo passou por grandes organizações, como o portal UOL, jornal Agora São Paulo, bem como na comunicação interna da Câmara Municipal de São Paulo, além de ser colunista em publicações dos grupos Globo e Abril. Hoje, é um dos repórteres da Agência Ponte, pioneira no jornalismo independente brasileiro. Conversamos com Fausto sobre o papel da profissão nos dias de hoje e como o jornalismo do futuro passa pelas organizações independentes.

 

 

 

 

Como o jornalismo independente tira o melhor da internet para a mobilização, coisa que a grande mídia ainda não conseguiu fazer?

Não estou certo de que o jornalismo independente esteja melhor do que a grande mídia na relação com a internet. Tenho a impressão de que, nessa área, todos estão ainda engatinhando em busca do grande desafio que é aprender a usar os verbos do momento: “engajar”, “mobilizar”, “viralizar”. A internet está cheia de sites que conseguem enormes audiências sem produzir conteúdo. Esses caras, que viralizam e fazem memes apenas remixando conteúdo alheio (como Emerson Spartz, tema dessa reportagem da New Yorker, que também está na última Piauí), é que entendem de mobilização. O desafio, tanto da grande mídia (veja o tão falado relatório do New York Times) como da mídia independente, é descobrir como gerar mobilização com conteúdo socialmente relevante. É o desafio que a gente se coloca na Ponte. Falamos de assuntos desagradáveis. Racismo, gente morta pela polícia, tortura. Como fazer as pessoas se interessarem em compartilhar esse conteúdo da mesma forma como compartilham vídeos de gatos?

Com essa mudança que o jornalismo está passando, qual o futuro que você vê para o jornalismo?

O jornalismo é mais necessário do que nunca. O trabalho de ir aos lugares e às pessoas e contar ao mundo o que você viu e ouviu continua a ser fundamental, O que muda é que surgem novas maneiras de fazer isso. O modelo da grande corporação de notícias passou a conviver com outras formas de produzir informação, que incluem coletivos de jornalistas, comunicação pública, documentários etc. O que a gente acredita na Ponte é que sempre vamos precisar de jornalistas profissionais. Gente que pode dedicar tempo e recursos para contar sua história, da mesma forma que qualquer cientista precisa de recursos para pesquisar um tema. Não dá para fazer bom jornalismo contando apenas com o trabalho amador, feito nas horas vagas.

Como você chama a atenção para uma grande reportagem na internet, sendo que existe um mito que as pessoas não leem grandes textos na internet ?

Esse mito já existia antes da internet. O impresso, especialmente no Brasil, vinha diminuindo seus textos alegando que as pessoas não gostam de ler. Cada reforma gráfica feita pela Folha de S. Paulo, por exemplo, diminuía em mais ou menos um quarto a quantidade de texto do jornal. Tem vários exemplos que desmentem esse mito. A revista Piauí é um. Na internet, os artigos da Eliane Brum geram muita leitura mesmo sendo enormes e complexos.

Eu sempre achei esse um jeito preguiçoso de encarar a questão. As pessoas não gostam de ler textos ruins. Ponto. Como dá trabalho produzir textos bons, os editores preferem encurtar os textos ruins para que as pessoas reclamem menos. Mas já faz milhares de anos que todo tipo de contador de histórias, sejam trovadores, dramaturgos, escritores, roteiristas, poetas, vem desenvolvendo técnicas para prender a atenção de um ouvinte/leitor/espectador e garantir que ele acompanhe uma história ao longo de centenas de páginas, ou de dezenas de horas. Dá para aprender a envolver as pessoas com textos longos sem reinventar a pólvora.

 O jornalismo independente defende um processo mais horizontal na produção de noticias. Como funciona na pratica essa interação? Como o cidadão participa democraticamente num processo que em si já é algo fechado?

Não sei se a horizontalidade é um valor de todo o jornalismo independente. Falando apenas por nós, a horizontalidade é um valor fundamental para a Ponte. Os jornalistas que participam do projeto têm todos a mesma autoridade. Não temos chefes. Em vários momentos fazemos reuniões com movimentos sociais para avaliar nosso trabalho e repensar nossas pautas.

 O jornalismo independente procura explorar debates que estão longe da grande mídia. Pautar assuntos que afetam uma minaria sem voz. Isso é tomar um dos lados, ou praticar o jornalismo em sua essência?

Acredito que as regras do bom jornalismo valem para todos. Aqui como no Estadão, a gente se propõe a verificar as informações que recebemos e a ouvir o máximo de lados envolvidos numa questão. Ao mesmo tempo, a gente assume o compromisso de estar ao lado das vítimas de opressão, não dos opressores, sem que isso signifique distorcer informações ou fazer apuração preguiçosa. Não fazemos assessoria de imprensa de movimentos sociais. Fazemos jornalismo. É importante reconhecer qual é o seu lado. Quem se coloca “acima dos lados” muitas vezes acaba, na prática, ficando do lado do opressor.

Propor ir a lugares que a grande mídia já não vai mais é ir contra o que ela representa? Ou ocupar um espaço que ela já não ocupa? O jornalismo independente nasceu de uma deficiência da grande mídia ou uma deficiência da sociedade que precisa reaver a consciência critica?

As duas coisas. O excesso de cobertura que a grande mídia faz do centro expandido, em detrimento da periferia, é um reflexo de como a própria cidade se comporta. Em relação à periferia, aos negros, aos indígenas, às comunidades, a grande mídia, de modo geral (sempre há exceções, e das boas), comporta-se exatamente como a polícia, os parlamentares, o Judiciário, as prefeituras, o Ministério Público…


 

Financiamento diminui fronteiras entre produtor e público

Crowdfunding é um conceito de que várias pessoas contribuam com alguma quantia em dinheiro para a realização de um projeto, um evento, etc. A contribuição não precisa ser feita com altas quantias em dinheiro, doações baixas (R$ 10,00 por exemplo) também são feitas. Hoje o crowdfunding é usado para várias vertentes, como o jornalismo independente, campanhas políticas, ajudar algum artista ou ajudar regiões atingidas por desastres. Qualquer pessoa pode criar seu projeto para pedir financiamento, basta ter um projeto em mente e ser aprovado pelos criadores do canal.

O Wikileaks tornou-se fonte de informação

O site criou uma relação de parceria com a imprensa

Por André de Oliveira Pinto e Milca de Oliveira Pinto

   O Wikileaks divulgou em fevereiro desse ano um site informando os custos que o governo do Reino Unido gasta em vigilância policial a Julian Assange, que está exilado na embaixada do Equador em Londres. O site mostra que o valor total já chega a 11 milhões de libras, o equivalente a 13 milhões de euros. Os contribuintes já se manifestaram contra esta ação, pois se utiliza de dinheiro público e já se estende desde dezembro de 2010.
A internet passou a ser peça fundamental na divulgação de informações. Através dela a comunicação e a interatividade alcançaram um estágio que nunca havia sido explorado. Assim, o jornalismo também foi influenciado por esse novo mecanismo em rede. As informações passaram a ser compartilhadas e as relações entre fonte e mídia tradicional foram modificadas.
O Wikileaks surgiu com o discurso de ajudar na conquista de um mundo onde o acesso à informação é livre e equilibrado, e interessado em contribuir para um jornalismo científico. Mas na realidade, tornou-se uma ferramenta muito mais polêmica deste processo.
Enquanto domínio virtual, ficou mundialmente conhecido em 2009 ao divulgar uma lista de 210 páginas, sobre empréstimos operados pelo falido banco islandês Kaupthing. Sob o controle do governo local, o banco operou empréstimos até 1,25 trilhão de euros para seus maiores acionistas e empresas do setor financeiro do país. Esta ação consistiu em prática ilegal, pois utilizou dinheiro público de forma indiscriminada.

O que é o Wikileaks

   A revelação feita pelo Wikileaks contribuiu para que o ideal de promoção da liberdade de imprensa fosse crescentemente difundido pelo mundo. Pode-se dizer que o site aproveitou as tecnologias e as novas formas de comunicação em rede para divulgação dos documentos.
Esta ferramenta tornou-se um local de colaboração, ao mesmo tempo em que se transformou num dos principais meios de divulgação de conteúdos éticos, políticos, econômicos, históricos, de forma anônima e combatendo a censura.
É importante destacar que o Wikileaks não se apoderou do fazer jornalístico, mas utilizou das mídias tradicionais para vazar seus conteúdos de caráter e interesse social.
Em entrevista especial ao Jornalismo FAAT, Rogério Christofoletti, jornalista, professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, afirma que o site é apenas uma fonte de informação que criou uma relação de parceria com a imprensa, selecionando os jornais para os quais mandariam as informações como forma de credibilizar os conteúdos a serem vazados.
“WikiLeaks, OpenLeaks e outras ações análogas são importantes instrumentos de publicização de informações de governos e empresas. Não os considero empresas de mídia ou jornalísticas. São coletivos hackers, motivados por princípios que dialogam com o jornalismo, como a busca pela liberdade de expressão, o fluxo livre de informações, o direito à comunicação, etc”, destacou.
Como o Wikileaks é um tipo de “banco de dados”, ou seja, dentro dele há uma grande quantidade de gráficos, números e documentos que é complexa para ser compreendida, quando a informação é recolhida, uma equipe jornalística analisa o material, verifica sua veracidade e redige uma espécie de resumo objetivo e legível, divulgando a importância de tal assunto para a sociedade.
As investigações colaborativas que surgem dos vazamentos de dados representam uma transformação no jornalismo de denúncia. Para alguns o jornalismo entrou numa crise de escala global. A facilidade de produção de conteúdo na rede – seja este útil ou não –, tirou do profissional a qualidade de mediador dos fatos e transferiu para o universo digital a responsabilidade de informar. Além disso, o jornalismo associado com as multi-plataformas disponibilizou, em pouco tempo, muitas informações sigilosas e protegidas de maneira jamais vista anteriormente.
Rogério afirma que as práticas do Wikileaks, bem como de tantas outras páginas na internet, influenciam o fazer jornalístico, em sua profundidade, no que diz respeito a ampliação de formas de difusão informativa. Isso tem modificado diretamente o jornalismo, mudando rotinas produtivas, motivando o diálogo com os públicos e fontes, e exigindo novos parâmetros de apuração.
Mesmo com a grande quantidade de informações que recebemos hoje, ressalta-se, que a prática jornalística fundamental é a apuração dos fatos. Os jornalistas devem checar os dados sem pressa.
“No grande vazamento de 2010, o WikiLeaks se aliou a cinco dos mais influentes veículos tradicionais do jornalismo. E o fez por estratégia de difusão informativa e por logística de distribuição. Os jornalistas envolvidos, por sua parte, checaram informações, zelaram por identidades de pessoas envolvidas, atendendo a preceitos éticos da profissão, entre outros aspectos”, afirma o jornalista. A proteção das fontes sempre foi um ponto marcante do jornalismo, independentemente de sua modalidade. Todavia, o ambiente virtual possibilitou ainda mais esta preservação. Hoje, aquele que colabora com alguma informação ou documento para o Wikileaks não é facilmente “encontrado” pela imprensa.
Rogério conclui que os vazamentos de dados feitos pelo Wikileaks “despertaram um choque entre interesse privado de um grupo político no poder e interesses da coletividade”. Esse choque, por sua vez, só poderá ser analisado com o tempo, restando-nos aguardar o desfecho.
Enquanto isso, Julian Assange, com toda a sua vigilância, evita deixar a embaixada, pois teme ser levado para a Suécia, onde enfrenta julgamento.

Assista ao documentário sobre o Wikileaks

ENTREVISTA
Repórteres:
André e Milca Oliveira
Entrevistado: Rogério Christofoletti

1. Como podemos definir o Jornalismo Investigativo da atualidade?
Um tipo de jornalismo cada vez mais necessário, que depende de muito preparo técnico, disposição de trabalho, rigor ético e coragem pessoal e institucional.

2. No documento redigido por Frank LaRue, Relator Especial das Nações Unidas para a Proteção e Promoção do Direito e da Liberdade de Opinião e de Expressão, e Catalina Botero, Relatora Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, são condenadas as práticas de interferência estatal na Internet. Com base nisto, é possível afirmar que o jornalista pode usar a internet como uma livre ferramenta para suas ações e para divulgar suas informações? Por quê?
O jornalista – ou qualquer cidadão – pode usar a internet para buscar e divulgar informações. No entanto, ela me parece muito longe de ser uma ferramenta livre e desimpedida. Em diversas partes do mundo, os governos constrangem as liberdades civis e monitoram as ações das pessoas na web. Não apenas. As corporações de tecnologia também recolhem dados pessoais dos usuários de forma inadvertida e os usam sabe-se lá como e porque. Não podemos nos dar ao luxo de sermos ingênuos. A web não é um território livre e seguro…

3. Como o senhor enxerga as práticas realizadas pelos administradores do Wikileaks? É um fazer jornalístico?
WikiLeaks, OpenLeaks e outras ações análogas são importantes instrumentos de publicização de informações de governos e empresas. Não os considero empresas de mídia ou jornalísticas. São coletivos hackers, motivados por princípios que dialogam com o jornalismo, como a busca pela liberdade de expressão, o fluxo livre de informações, o direito à comunicação, etc… Mas Assange e seus colegas não são jornalistas. O trabalho que fazem é tão somente o de tornar públicas algumas informações, que lhes chegam. Eles não apuram. Não confirmam. Não checam os dados. Também não mantêm preocupações éticas como o sigilo de identidades de pessoas mencionadas em seus documentos, o que pode causar problemas como perseguições políticas, agressões e atentados. No grande vazamento de 2010, WikiLeaks se aliou a cinco dos mais influentes veículos tradicionais do jornalismo. E o fez por estratégia de difusão informativa e por logística de distribuição. Os jornalistas envolvidos, por sua parte, checaram informações, zelaram por identidades de pessoas envolvidas, atendendo a preceitos éticos da profissão, entre outros aspectos…

(Daniel Queiroz/Notícias do Dia)

Rogério é jornalista, professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). (Daniel Queiroz/Notícias do Dia)

4. Desde os vazamentos ocorridos em 2009 e 2010, o Wikileaks tornou-se uma fonte para jornalistas no mundo todo. Em sua opinião, o Wikileaks é uma fonte crível de conteúdo? Por quê?
Pode ser crível. Vai depender do caso, do momento, do assunto e do grau de fidelidade da informação.
Jornalistas não podem confiar cegamente em nenhuma fonte. Nem mesmo o WikiLeaks. Precisamos checar a veracidade, a confiabilidade do que iremos publicar.

5. Segundo o fundador do Wikileaks, Julian Assange, o site serve com um banco de dados voltado para a conquista de um mundo onde o acesso à informação é livre e equilibrado. O senhor concorda com esta afirmação? Por quê? Podemos dizer que o site deseja ser o detentor/canalizador das informações?
Concordo que o site pode servir como um banco de dados que nos permita ampliar o acesso a informações ocultas.
Talvez o site queira ser o detentor/canalizados desses dados, mas não isso é só uma possibilidade entre outras tantas.

6. As práticas do Wikileaks, bem como de tantas outras páginas na internet (blogs, redes sociais, jornais online etc), influenciam o fazer jornalístico e sua profundidade?
Sim. A ampliação de formas de difusão informativa tem modificado profundamente o jornalismo, mudando rotinas produtivas, motivando o diálogo com os públicos e fontes, e exigido novos parâmetros de apuração.

7. Ao falarmos de vazamento de documentos confidencias de governos, até que ponto a liberdade de imprensa e o sigilo governamental se chocam?
A pergunta é difícil porque não há uma resposta única. Depende de cada caso. Mas a oposição mais correta seria sigilo governamental versus direito do cidadão à informação. Nesta oposição que sugiro há um choque entre interesse privado de um grupo político no poder e interesses da coletividade…

8. Quais são os cuidados que o jornalista deve ter quando uma grande quantidade de informações é publicada na rede?
Checar, checar e checar. Não ter pressa. Checar, checar e checar mais uma vez. Sem pressa.

9. Em que medida este novo tipo de jornalismo cooperativo influência os estudantes que acabaram de se formar e entrar no mercado de trabalho?
Tenho a impressão que influencia sim, mas não saberia dizer em que medida. Ainda é muito cedo para sabermos se as novas gerações de jornalistas serão mais ou menos rigorosas, mais ou menos apressadas, mais ou menos éticas, melhores ou piores…