“Onde houver uma história a ser contada, lá estarei”

Takada encerra semana com boas histórias e um olhar poético sobre moradores de rua

 Jean Takada destacou a pesquisa em seu trabalho de imersão

Pesquisa foi destaque em seu livro; para o autor uma palavra resumiria o trabalho: humanidade

Paulo HD Silva

A FAAT Faculdades encerrou a Semana de Comunicação – Jobmix na quarta-feira, dia 28, com a palestra ministrada por Jean Takada, jornalista e designer gráfico, formado pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).

A princípio, Takada contou que desde criança gosta de ouvir histórias, principalmente sobre pessoas, o que mais tarde o levou a tomar duas decisões importantes em sua vida: cursar jornalismo, firmando-se como contador de histórias reais, e empreender um projeto sobre moradores de rua.

O livro “Delírios, histórias e relatos no Centro Velho de São Paulo”, idealizado por Jean em 2012, lança um olhar humanizado e poético sobre moradores de rua com transtornos mentais, ao passo que denuncia as condições desumanas que estavam sujeitados, em virtude do abandono por parte de familiares e poder público.

O jornalista conta que a iniciativa surgiu em uma de suas andanças pelas proximidades da Catedral da Sé, quando avistou uma moradora de rua chamada dona Olivia. Idosa e esquizofrênica, passava os dias a gritar e puxar os cabelos, enquanto convivia com a indiferença dos transeuntes. Era, pois, a temática que faltava a Takada.

Buscou referências no censo de população de rua, nas políticas públicas, legislação, e literatura específica. Deparou-se com estimativas duvidosas, políticas públicas ineficazes, e leis obsoletas. Encontrou justificativas na literatura, embasando-se nos estudos de Michel Foucault, e inspiração nas crônicas do escritor João do Rio, que foram reunidas na obra “A alma encantadora da rua”, publicada em 1908.

Com a câmera nas mãos e uma ideia na cabeça, Jean passou a interagir com personagens do Centro Velho, registrando os relatos que eles lhe contavam, independentemente, se fossem lúcidos ou não. “Misturavam realidade com ficção, mas ainda assim documentei da maneira como ouvi, para que o público embarcasse também nessas histórias”, relembra.

Entre os personagens que o jornalista encontrou pelas veredas do Centro Velho, destacam-se: Edvânia e suas três personalidades: jornalista, atriz e dançarina; a tailandesa Milba, que viajava pelo mundo através de seu passaporte mágico, e estava no Brasil para ajudar a resolver os conflitos civis; o escritor Hamilton, que buscava nas ruas o anonimato necessário para escrever seu livro sobre espiritismo;  Da Lua e seu carrinho de bebê, utilizado por ele como cama; o gentleman Toni Belo, sempre  trajado com elegância e garbo; entre outros.

Perguntado sobre a história que mais o tocou, Takada não tem dúvidas em recordar de Reginaldo dos Santos. Descendente de índios, relatava uma história de vida confusa e sem muitos detalhes. Se dizia órfão, de modo que fora criado por freiras num orfanato, e o sobrenome “dos Santos”, elas haviam lhe dado para protegê-lo de todos males mundanos. Transitava pela Rua Bento da Boa Vista em uma motocicleta invisível. Contudo, o fato mais peculiar em Reginaldo, era que ele não se deixava ser fotografado, pois segundo as tradições e mitos indígenas que trazia consigo, “ a fotografia poderia roubar-lhe a alma”.

Posteriomente, Jean reuniu, no livro Delírios, crônicas sobre dez personagens que entrevistou, e disponibilizou a obra gratuitamente na plataforma Issuu, além de também manter uma página no Facebook, sobre esse projeto.

Atualmente o jornalista tem dedicado seu tempo ao projeto “Gente de Atibaia”, que busca registrar e tornar público típicos personagens regionais e suas respectivas histórias. “O intuito desse projeto é valorizá-los, evidenciando suas particularidades. É um projeto que não terá fim, pois onde houver um personagem icônico e uma história a ser contada, lá estarei eu para registrá-los. Esse é um trabalho tenho imenso prazer em realizá-lo”, revelou, entre sorrisos.


 

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Professores do curso de Jornalismo da FAAT participam de encontro sobre tecnologia no Estadão

Tecnologia exige inovação e constantes atualizações na atuação jornalística

Professores William Araújo, Arthur Gebara e Osni Dias na redação do jornal O Estado de S. Paulo.

Professores William Araújo, Arthur Gebara e Osni Dias na redação do jornal O Estado de S.Paulo.

Osni Tadeu Dias

Em comemoração ao 10º Prêmio Santander Jovem Jornalista, professores do curso de Jornalismo da FAAT participaram de um encontro sobre tecnologia no Jornal O Estado de S. Paulo em 21 de outubro, com a presença de Ricardo Gandour (Diretor de Conteúdo), Roberto Gazzi (Diretor de Projetos Editoriais), Luis Fernando Bovo (Diretor do Portal, Móbile e Produtos Digitais) e profissionais do Curso Estado de Jornalismo.

O tema foi “Desafios das Redações na Revolução Digital”. Estiveram presentes o coordenador do curso de Jornalismo da FAAT, professor Ms. Osni Tadeu Dias, o professor Dr. William Pereira de Araújo e o professor de Telejornalismo Arthur Gebara Jr. Participaram também coordenadores de curso de Jornalismo de várias faculdades de São Paulo.

Para Gandour, a intenção foi encurtar a distância entre o mercado e a academia. “Precisamos de gente com sonhos, com sangue nos olhos”, disse Gandour para uma plateia de jornalistas/professores no auditório do Grupo Estado. Segundo o diretor, estamos em mudança permanente. Roberto Gazzi apontou que o jornalismo impresso caminha para um novo modelo de negócio, voltado para reportagens especiais e matérias exclusivas.

Já Luis Fernando Bovo abordou as ferramentas digitais do Estadão e, na sequência do encontro, levou os participantes até a redação do jornal onde mostrou, in loco, o trabalho dos jornalistas e as mudanças em curso – entre elas a moderação em grupos a fim de agregar informação de qualidade ao leitor e a visualização da audiência em tempo real, em painéis situados em pontos estratégicos da redação. Os professores já pensam em mudanças significativas para o curso de Jornalismo da FAAT para o ano de 2016.

Premiações

O Estado venceu três categorias do Prêmio ExxonMobil de 2015, o mais tradicional da imprensa brasileira. Os ganhadores da 60.ª edição do prêmio foram anunciados no Rio de Janeiro, dois dias antes do encontro de coordenadores de curso. Paulo Saldaña, Rodrigo Burgarelli e José Roberto de Toledo conquistaram a categoria principal com o trabalho “Farra do Fies“. O fotógrafo Dida Sampaio foi duplamente premiado, nas categorias “Fotografia”, com a imagem da presidente Dilma Rousseff pedalando diante de uma placa com a inscrição Lava Jato Planalto e na “Regional Sudeste” pelo especial Favela Amazônia, da qual foi vencedor em parceria com o repórter Leonencio Nossa. Os vencedores serão homenageados no dia 12 de novembro.


 

Rabinovici relembra cobertura de conflitos

Correspondente viu atrocidades e não temia a morte

Rabinovici expôs trajetória de correspondente, atuação que enfraquece frente à tecnologia. FT.:Milca Oliveira

Rabinovici expôs trajetória de correspondente, atuação que enfraquece frente à tecnologia. FT.:Milca Oliveira

Larissa Godoy :: Jobmix-2015

Na década de 60, a ciência mundial é surpreendida pelo descobrimento de um crânio humano de “um milhão de anos”. Esta raridade despertou o interesse da mídia mundial, e colocou uma Escola Amadora de Arqueologia no circuito arqueológico do planeta. Tal feito seria um marco, se a notícia não estivesse errada. O crânio era de 10.000 anos da época pré-colombiana de Minas Gerais, mas ainda assim bastante significativo. Coube ao jovem de 17 anos, Moisés Rabinovici desmentir a informação  publicada no jornal Ultima Hora, de Minas Gerais. “Exijo a verdade para o bem da ciência”, teria dito Rabino —como é conhecido—, na Redação do periódico mineiro Ultima Hora, quando foi convidado para sentar e fazer o texto de correção. Nessa ocasião, foi imediatamente convidado para integrar a equipe de reportagem.

A partir desse primeiro contato com o jornalismo, Rabino começou a trabalhar no jornal de Samuel Wainer. Foi para desmentir uma mentira, e acabou ficando para desvendar verdades. Cavando histórias tal qual um arqueólogo faz para descobrir fósseis antigos e esquecidos, o jornalista Rabinovici abriu a 10ª edição do JobMix da FAAT Faculdades, nesta segunda- feira,26. Os alunos do curso de Jornalismo acompanharam ávidos as histórias do correspondente de guerra que viajou o mundo para expor as verdades dos conflitos.

O lobo solitário, como se auto-designa, com seus 50 anos de carreira completados na segunda-feira e comemorado com os alunos da FAAT, mostrou um pouco de seu trabalho feito ao redor do mundo. A lista é grande. Ruanda, Israel, Quênia, Zimbabue, Africa do Sul, Iugoslávia, Macedônia, Panamá. Reuniões do FMI, Casa Branca, Senado, Nasa. A correspondência proporcionou a Rabinovici a oportunidade de entender conflitos tão complexos que até os atores envolvidos tinham dificuldade de compreender. Esbarravam em rancores milenares e, diante disso, procuravam elucidar e remeter para os brasileiros as informações de uma maneira inteligível.

Rabino contou sobre um episódio quando entrevistou um ex-coronel israelita que perdeu as duas pernas eos braços em uma explosão. As terras são até hoje reivindicadas pelos judeus e palestinos. Do lado judeu, ouviu que o pertencimento das terras lhes cabe devido a pessoa de Abrãao. Do lado palestino, a terra era vista como um legado de pais, avós, bisavós e tataravós enterrados nas terras de sua propriedade.

Ouvir os dois lados foi o primordial para Moisés Rabinovici  —que trabalhava com telex, viu os primeiros laptops invadirem as redações dos jornais, e a tecnologia ser o primordial nos dias de hoje. “Não se cobre a guerra como antes. Hoje a guerra é um video-game. Os jornais fazem acordos e dividem correspondentes”, disse. Moisés Rabinovici destacou a redução das páginas internacionais nos periódicos. Quando o assunto é sobre os vizinhos há um interesse público, disse ele. “Mas ao sair desse eixo, o repórter como conheço, está em extinção.”

Um dos fundadores do Jornal da Tarde, Rabino tentou empregar um conceito editorial e gráfico a fim de sair da mesmice da imprensa brasileira. No JT ele harmonizava o título, texto e a foto em uníssono. A notícia era oferecida como um produto de interpretação e não apenas um amontoado de informações. “Numa época de crise, só vai ganhar quem for singular. Quem sair da mesmice. Hoje, não há criatividade. A busca pelo sensacionalismo onde não existe proporciona um desserviço ao leitor, aponta”.

O experiente jornalista contribuiu com um aconselhamento aos alunos presentes: “o repórter tem que ser alfabetizado na tecnologia, precisa dominar o inglês. Entender a tecnologia,e poder decifrar os “big datas” é estar um passo à frente de ser um bom jornalista moderno.”

Na noite chuvosa de segunda-feira, o lobo solitário pode comemorar com um pequeno mas participante grupo de futuros jornalistas suas bodas de ouro no Jornalismo. E, tão sereno quanto entrou no auditório, o senhor de fala calma e simpática, foi-se com sua bolsa bege no ombro, camisa verde e seus óculos redondos.

Identidades

Alguns dos muitos documentos de identificação utilizados pelo repórter em sua trajetória e que permitia trânsito livre e nem sempre seguro pelos países e áreas de conflito.

Ids-Rabinovici-edit

Documentos utilizados por Rabinovici quando atuou pelo O Estado de S. Paulo. Acervo do Repórter