Águas do Brasil

Reservatório do Sistema Cantareira em Bragança Paulista, desde o início do ano operando a níveis abaixo dos 20%, o pior nos últimos 10 anos. Foto:Nelson Antoine-Foto arena-Estadão Conteúdo

Reservatório do Sistema Cantareira em Bragança Paulista, em níveis abaixo de 20%. Foto:Nelson Antoine-Foto arena-Estadão Conteúdo

Larissa Godoy e Guto Felipe

Tema de diversos congressos e tratados, a proteção dos recursos hídricos e o debate sobre o atual cenário climático são assuntos recorrentes em organizações governamentais e não-governamentais, por se tratar de uma necessidade básica da humanidade ou devido a sua relevância para as perspectivas de um país e seus recursos naturais.

A recente crise hídrica, que afeta desde o início do ano reservatórios da região sudeste baixando consecutivamente os níveis de água dos reservatórios, evidência os problemas existentes no abastecimento e distribuição de água em todo o país.

Reservatório do Sistema Cantareira em Bragança Paulista, desde o início do ano operando a níveis abaixo dos 20%, o pior nos últimos 10 anos. Foto: Nelson Antoine/Fotoarena/Estadão Conteúdo

O Brasil, conhecido por sua vasta diversidade natural, abriga cerca de 90% da água doce disponível para consumo no mundo, em seus 8 milhões de km². Devido à sua dimensão continental e mesmo com a grande quantidade de recursos hídricos, o país possui uma distribuição desigual de água, devido à grande variação climática de suas cinco regiões (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste). Distribuídas em 12 regiões hidrográficas, os extremos são vistos de acordo com a disponibilidade hídrica de cada região.

Segundo estudo da Agência Nacional de Águas, em estudo sobre o panorama hídrico,o Atlas Brasil, a região que abrange os Estados do Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia e Roraima, além de grande parcela do Pará e Mato Grosso, concentra 81% dos recursos hídricos brasileiros, isso em 45% da extensão territorial do país. A outra metade, assim sendo, é responsável por menos de 20% dos recursos hídricos brasileiros.

Os reservatórios exercem um efeito regularizador das vazões naturais, ao acumular parte das águas disponíveis nos períodos chuvosos, de forma a atenuar eventuais deficiências nos períodos de estiagem. Entretanto, a utilização da água tanto para consumo quanto para produção de energia, combinada com uma histórica temporada de seca, vem proporcionando a empresas distribuidoras e governos, em ano de definição dos futuros comandantes dos governos Federal e Estaduais, gerando impasses sobre a distribuição de água, onde não se admite o racionamento, apesar da população sofrer com ele diariamente em algumas regiões.

Demanda de água

Enquanto a Região Metropolitana de São Paulo possui uma população próxima a 20 milhões de habitantes, concentrada em uma área de 10 mil km², municípios da Região Norte do país, como Atalaia do Norte, cidade localizada no Amazonas, apresentam densidade demográfica extremamente rarefeita, inferior a 0,15 hab./km².

Tal polaridade entre recurso e demanda pode causar um apagão hídrico nas principais regiões metropolitanas quando mal gerenciado, tal como ocorre hoje. Atualmente, 84% da população está na área urbana e de acordo com projeções do Atlas Brasil, entre os anos de 2005 e 2025, o crescimento do país será de aproximadamente 28%, para esse mesmo período projeções indicam que as regiões Sudeste e Nordeste representarão 71% da demanda hídrica total.

Os recursos hídricos a disposição no país estão divididos entre reservas de águas subterrâneas e mananciais superficiais. As reservas de águas de subterrâneas se distribuem em diferentes tipos de reservatórios representados pelos domínios aquíferos porosos, fraturado-cárstico (rochas carbonáticas), fraturado (rochas cristalinas) e fraturado-vulcânico, sendo as reservas de aquíferos poroso as de maior potencial do sistema. Considerando todos os domínios, as reservas renováveis de águas do país atingem aproximadamente 42,3 mil m³/s, ou 24% do escoamento médio dos rios em território nacional e 46% da disponibilidade hídrica de todo o país.

Dos 5.565 municípios brasileiros, 47% são abastecidos exclusivamente por mananciais superficiais, 39% por águas subterrâneas e o restante obtém seus recursos hídricos pelos dois tipos de mananciais.

O uso intensivo de mananciais superficiais é observado nos estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Paraíba, em que mais de 75% dos municípios são abastecidos exclusivamente por águas superficiais, assim como Acre, Amapá e Rondônia, Alagoas, Bahia, Ceará, Sergipe, Goiás, Minas Gerais e Santa Catarina.

Por outro lado, nos Estados do Piauí, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pará, Amazonas, Roraima e Tocantins, os municípios são predominantemente abastecidos por mananciais subterrâneos, devido a existência de aquíferos com elevado potencial hídrico e em função da simplicidade operacional do abastecimento por poços para o atendimento de municípios de pequeno porte.

Em São Paulo, Paraná e no Rio Grande do Sul, mais de 50% dos municípios localizados no oeste dos estados, também são abastecidos por águas subterrâneas. Contudo, ressalta-se a importância das águas superficiais nesses estados, principalmente para o abastecimento de regiões metropolitanas e cidades de maior porte.

Sistemas de produção de água e conseqüências

Os sistemas produtores de água existentes no Brasil podem ser diferenciados entre integrados, que atendem a mais de um município a partir do mesmo manancial, e isolados, que abastecem apenas um município. A grande maioria dos municípios (4.770 ou 86% do total) é abastecida por sistemas isolados, atendendo a uma população urbana de 83 milhões de habitantes. Já os sistemas integrados abastecem 795 cidades (14% do total), beneficiando uma população de aproximadamente 78 milhões, em 2010. Em todas as regiões geográficas, predominam os sistemas isolados, contudo, nas regiões Nordeste e Sudeste, a maior parte da população urbana é atendida por grandes sistemas integrados.

Rio S. Francisco: vasão média de 2.846 m³/s, fonte hidríca para outros sistemas integrados. Foto: Ronivon Rony

Rio S. Francisco: vasão média de 2.846 m³/s, fonte hidríca para outros sistemas integrados. Foto: Ronivon Rony

De acordo com levantamento do jornal Folha São Paulo em 17/09/2014, o racionamento de água afetava 142 municípios em 11 estados. Companhias apontam essa como a seca mais grave em 20 anos no estado, sendo no nordeste a maior em 50 anos, e mesmo o racionamento sendo algo pouco dito pelas companhias na região sudeste, os estados do Alagoas, Ceará, Bahia e mais 72 municípios fazem rodízio de água desde 2012.

Estudo revelou que a seca é uma realidade de vários estados brasileiros. Fonte: Folha do Estado de São Paulo

Estudo revelou que a seca é uma realidade de vários estados brasileiros. Fonte: Folha do Estado de São Paulo

Entre as problemáticas discutidas como sendo causadoras de um abastecimento pouco eficiente estão a falta de controle rigoroso de vazamentos, as fraudes em hidrômetros e ligações clandestinas, assim como a capacidade produtiva dos sistemas. Estudos indicam que o limite hídrico do país está praticamente no limite, onde a capacidade total dos produtores instalados e em operação no paísé de 587 m³/s, no entanto, as demandas atuais estão em aproximadamente 543 m³/s.

De acordo com o estudo da ANA (Agência Nacional de Águas), Atlas Brasil, é necessário um investimento superior a 22 bilhões de Reais no sistema hidrográfico brasileiro, em aproximadamente 55% dos municípios ou cerca de 3.059 cidades, afetando 139 milhões de habitantes. As regiões que necessitam de mais investimentos são sudeste e nordeste, com 16,5 milhões de Reais devido aos centros urbanos e regiões semiáridas, respectivamente.

Tags : Abastecimento, Brasil, Seca


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10 pensamentos sobre “Águas do Brasil

  1. A temática sobre o problema da falta de água apresentada no texto e na exposição em sala deve, no mínimo, causar reflexão sobre o que podemos fazer, seja em economizar ou na própria ação dos governos.

    É uma situação grave que aparenta não estar sendo levada a sério pelos órgãos competentes, pois não é algo recente, da qual se é necessária grandes investimentos e recursos para ser resolvida.

    Obviamente há parte de culpa da população pelo desperdício, mas é algo que vai além, sendo que se não forem tomadas medidas o mais rápido possível, todos sofreremos ainda mais e por muito mais tempo.

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  2. O tema proposto pela dupla propõe uma discussão muito interessante, em primeiro plano, podemos ver a escassez de água na região e suas consequências, em segundo, algumas medidas que deveriam ser tomadas.
    O Governo Estadual pouco trabalha em questão do assunto, talvez pela época eleitoral? Quem sabe, mas o que nos mostra, são, medidas de um pré-racionamento que estão sendo tomadas, nada que justifique os investimentos declarados.
    Por fim, concluo que, a Califórnia, passa pela mesma seca que estamos enfrentando, mas medidas mais duras estão sendo tomadas, como multas, incentivo em academias, redes sociais, restaurantes e um trabalho intenso do governo. Esforços não estão sendo medidos para o fim do problema.

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  3. Brasil, que abriga mais de 85% de água doce disponível, mas essa distribuição de água é desigual, por exemplo, nordeste. Como podemos levar água para lugares que é comum a seca na maior parte do ano?

    Só com dados escritos e destacados, temos essa noção da falta de água no País, e desde começo do ano com chuvas pouco proveitosas, vemos claramente que o racionamento tinha que ter início há muito tempo.

    Água uma bem tão valioso, infelizmente só damos esse merecido valor quando a seca aperta e o racionamento é a ideia da vez.

    Parabéns a apresentação da dupla Larissa e Guto.

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  4. O modo como a água é coletada e distribuída no Brasil, é crítico. Apesar de possuir o maior recurso hídrico do mundo, com dimensões continentais, a falta de planejamento fez com que esse esquema de distribuição viesse por água a baixo. Seu estopim foi a seca no sistema Cantareira, que abastece a cidade de São Paulo.

    O Brasil deveria possuir um esquema de distribuição muito bem planejado, já que possui áreas com grande contingente populacional e áreas com pequeno contingente. Deveria haver também, uma campanha de racionamento de água. Tal campanha só foi vista, quando a situação estava extremamente crítica.

    Além da distribuição, o Brasil deveria investir na manutenção dos sistemas de armazenamento de água, já que não é rara a presença de vazamentos, fraudes em hidrômetros e ligações clandestinas. Tais investimentos são necessários em todo o país, mas as áreas que mais precisam de cuidados são o nordeste e o sudeste.

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  5. Como leitora, creio que este texto tenha ficado carregado de informações. Não que elas não sejam válidas, pelo contrário, está bem completo e informa corretamente, mas poderia ser mais leve.
    Eu mesma luto com isso, escrevo demais e tenho sempre que diminuir. Quando escrevemos, não nos damos conta, por vezes, de mensurar corretamente, a fim de não tornar cansativo para quem lê.
    Fora isso, o texto está ótimo, dá um panorama atual sobre a situação da água no nosso país. Ao ler, sabemos que reais conhecedores do assunto elaboraram o texto, o que aumenta o prazer da leitura.

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  6. Segundo o ultimo episódio do programa Fantástico, o desmatamento que ocorre na floresta Amazônica afeta diretamente o baixo nível do reservatório de água na região sudeste. Muitos garimpeiros ainda desmatam a Amazônia ilegalmente.

    Segundo o pesquisador do Inpe, as chuvas que ocorrem no verão são da umidade oriunda da Amazônia, que dependem da árvores para ocorrer. Sem árvores, sem umidade e consequentemente sem chuva.

    A Polícia Federa, o IBAMA, a FUNAI e agora o Ministério Público estão fechando o cerco para enquadrar as quadrilhas que desmatam a Amazônia ilegalmente, mas só isso não basta: é necessário reflorestar as áreas já desmatadas para que o clima no Brasil comece a ser como era a 50 anos atrás.

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  7. Antes de tudo, apenas gostaria de informar que o texto esta com bem mais que 2.800 caracteres conforme exigido em aula, digo isso porque o conteúdo do texto acabou ficando abrangente demais por causa da extensão.

    Realmente estamos vivendo uma crise no Brasil, em todos os sentidos. Porém, a diminuição da quantidade de água é a que mais nos afeta, pois estamos ficando sem saída para o caso da água realmente acabar!

    O que me chamou a atenção foi o estudo da ANA que informa ser necessários mais de 22 bilhões de reais no sistema hidrográfico brasileiro. Isso significa que existe uma solução? Apenas com esse valor já é suficiente melhorar a distribuição e a economia de água nessas 3 mil cidades?
    Sabemos que precisamos economizar água, mas além disso, há alguma outra coisa que possa ser feita na prática? Alguma mudança na estrutura hidrográfica, alguma tipo de projeto de reservas estratégicas de água?

    Atenciosamente!

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  8. O problema da falta de água vem sendo discutido há anos. São conferências e mais conferências buscando soluções para o meio ambiente. E infelizmente é tarde demais para pensar em formas de conscientizar as pessoas.
    Todos esses anos em que já se previa o que está acontecendo agora, não foi investido em educação sobre o tema, não foi refletido, pensado e mudado nada no modo de agir e utilizar a água pela população. Aliás, é maioria os que não tem consciência alguma da gravidade da situação e continuam desperdiçando.
    A aplicação de multas não é eficiente. Não para um país como o nosso, em que o governo não reinveste o dinheiro na resolução do problema e as pessoas não se importam de pagar mais na conta de água por exceder o limite permitido. Mesmo que para alguns o racionamento pareça radical demais, na situação atual é a melhor solução.

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  9. Quando observamos a recente crise hídrica no Brasil, não devemos apenas atribuir a esta questão os problemas existentes no abastecimento e distribuição de água em todo o país. Claro que a distribuição desigual de água é um fator que deve ser considerado, mas não é o único.
    Muitas vezes, estes problemas vêem de conseqüências de longo prazo que deixamos de lado. Enquanto, lamentamos a falta de água na região, esquecemos que por trás deste grande acontecimento se escondem questões como o desmatamento, que é de conhecimento da grande maioria. Conforme mostrado na última edição do programa Fantástico, da rede Globo, o desmatamento da floresta Amazônica é um dos principais fatores para estarmos sofrendo esta terrível seca. E, isso, como disse antes não vem acontecendo de um ano pra cá, mas, sim, de cerca de 40 anos atrás. Aí fica a pergunta: o que a fiscalização e o governo fizeram para que este problema fosse resolvido? A negligência desta questão é o que se vê, hoje, estampado nas capas dos jornais.

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  10. O Brasil possui quase 7/8 da água doce disponível no mundo em seu território. No entanto a divisão da mesma, é extremamente injusta. Os estados do Amazonas, Acre, Amapá, Roraima e Rondônia abrigam 81% dos recursos hídricos do nosso país, restando 19% para todos os outros 21 estados. Tanto o texto quanto a apresentação d dupla nos faz parar e refletir: Como tenta repartir os recursos hídricos do nosso país, de uma forma mais justa. E mais a frente, o pouco que a região sudeste possui, é extremamente desperdiçado em ações cotidianas e até na própria captação da água.

    Como explicado minuciosamente no texto, o País vem passando por um momento gravíssimo de seca, decorrente das chuvas de começo de ano que foram pouco proveitosas, da ignorância da população e do mau planejamento do governo.

    Enquanto milhares de pessoas passam sede, ao invés de ajudarmos ao máximo economizando, para termos no futuro, parece que estamos mais preocupados em fazer a “brincadeira do gelo”.

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