Maria da feira

ENCANTADORA: Maria, exemplo de superação e coragem na feira de Alvinópolis (Foto: Fabio Galuppi)

Livia Magrini

Quando cheguei à feira, o sol estava muito quente, mas ainda assim, animador. O ambiente e toda aquela movimentação me foram agradáveis desde o primeiro momento. As vozes suaves de fundo davam uma sensação de quase silêncio. Os acenos de bom dia e as trocas de olhares eram calorosos, capazes de transformar o dia de qualquer um ali presente.

A princípio, minha missão era abordar um casal, desses que esbanjam companheirismo até na hora de comprar frutas e verduras e de escolher o melhor preço entre as barracas. Mas não era pra acontecer – eu tinha mesmo que encontrar aquela mulher. Quando a vi, ainda distante, senti medo por não ter a mínima ideia de como abordá-la e dizer um simples “oi, tudo bem?”.

Ainda não podia imaginar que nossa conversa fluiria de uma forma tão especial. Seu nome é Maria Rosa de Jesus, uma senhora de 84 anos, postura cansada e um sorriso encantador. Dona Maria é feirante há 35 anos, sendo 20 deles na cidade de São Paulo, e os outros 15 na principal feira livre de Atibaia, localizada em frente à igreja Cristo Rei.

Logo nos primeiros momentos de conversa, notei algo diferente em sua fala: o sotaque. Dona Maria veio de Portugal, com o marido e o filho. Enquanto me contava essa parte de sua história, houve uma pausa. Sua voz ficou mais baixa, quase não dava para ouvi-la. Me estiquei entre o espaço que nos separava da barraca e pude entender o que dizia: Dona Maria perdeu o marido pouco tempo depois de chegar ao Brasil.

Aquela mulher que deixou o seu país junto da família, criou sozinha o filho em uma terra desconhecida, estava ali, naquele dia ensolarado, contando sua história para mim e dizendo com tamanha alegria que as feiras do Brasil são as mais bonitas que já encontrou. Fiquei sem palavras e segurei forte em sua mão, para tentar expressar minha gratidão. Perguntei se ela poderia sorrir para que uma foto fosse tirada. Ela pegou um chumaço de alface da própria barraca e sorriu. Para mim, aquele sorriso foi tudo. Talvez, daqui alguns dias, ela nem se lembre mais de mim, ou talvez até já tenha me esquecido. Mas eu sempre me lembrarei dela.

Daquela Maria com uma força que encantou meu coração e me ensinou que algumas entrevistas possuem uma magia forte demais, capaz de engrandecer qualquer jornalista. Graças a ela, hoje eu compreendo quão humana é a minha futura profissão.

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