Lembranças da Dona Eunice

Eunice e as montanhas que eram coloridas por brumélias

Eunice e as montanhas que eram coloridas por brumélias

Katarina Brandi

Cheiro de planta, iluminação aconchegante e casa de avó, foram as primeiras impressões que tivemos quando na casa de Dona Eunice Massoni. Com 80 anos, bem humorada, nos recebe para um café com bolo de laranja. Na casa, um piano, violão, dizeres religiosos, estátuas antigas e sofás rústicos, completam o cenário da sala. O cheiro faz lembrar as manhãs de domingo. Dona Eunice, professora formada em língua portuguesa, escreve poesia e frequenta a missa. Moradora de Atibaia desde que nasceu, sente saudades da vida calma desta cidade do Interior.

Suas primeiras palavras sobre as mudanças de Atibaia foram sobre as flores. “Jasmineiros”, disse fixando-se em nossos olhos. “Sinto falta dos jasmineiros, que deixavam o bairro inteiro cheiroso. Eram lindos e ficavam na esquina da rua”, lembra.  Dona Eunice mora na Treze de Maio desde a adolescência. Quando criança morou “na rua das duas igrejas”. Várias histórias podem ser contadas nesta reportagem, mas o olhar distante de Dona Eunice começa quando perguntamos do que mais sente saudades. Com visível alegria nos olhos, diz: “do cheiro da terra batida, das belezas naturais e das pessoas, claro!”. Os vizinhos que brincavam com ela quando eram crianças, famílias antigas, como os Ferraz, donos do casarão que até hoje está tentando sobreviver em Atibaia, e dos Barretos, donos  de uma alfaiataria na rua de cima.

A senhora Massoni mostra a Pedra Grande e conta como era naquela época. “Era cheio de flores, a rocha não aparecia, e era uma floresta só! Tudo era lindo, era tudo mato”, acentua. Ela lembra nitidamente que mudou-se para o endereço atual quando houve a separação dos escravos dos brancos. “No final da rua havia uma fonte, onde hoje está o Hotel Vila Verde. Os escravos moravam ali.”

Segundo ela, a igreja do Rosário foi construída para os negros e a primeira missa foi realizada pelo Padre Matheus, homenageado com seu nome numa escola no Bairro de Caetetuba. Eunice agita-se na cadeira quando pensa no passado. Comenta com carinho sobre o trem que saia da cidade de Bragança Paulista e parava ali perto do centro. Nessa época a cidade só tinha quatro ruas: a dela, a das igrejas, a rua onde hoje é o calçadão, e a do mercadão.

Quando formada, percebeu que Atibaia tinha crescido junto com ela! Conta também que trabalhou na escola onde hoje é a FAAT. Ela não lembra do nome, mas em meio a risadas comenta que chamavam a escola de “Jonjoca”. Era chamada assim porque o nome do dono era João. Por conta disso, ela e outras professoras faziam piada a partir disso.  Além disso, diz, não existe mais charretes nas ruas, nem mulheres usando belos vestidos. Com os olhos nesse tempo, mesclando sorriso e tristeza por algo que não volta mais, divaga num pensamento…“Atibaia foi indo, crescendo, e a gente também…”


 

Você tem fé, tendo

fé a gente tem Deus,

e tendo Deus a

gente tem tudo

 


 

 

Comente este post ...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s