Santo Cruzeiro, simbologia e sincretismo

Cruz do martírio faz relembrar  erros cometidos e acertos necessários.

Dárcie Visan

Em 7 de setembro de 1922 era inaugurada a praça do Santo Cruzeiro, em Atibaia. Sua história material se mistura com mitos, profecias, lembranças e pessoas reais que confiaram naquela cruz seus amores, dores e sonhos. A poucos metros da praça, em uma casa simples, na tradicional rua que liga as primeiras igrejas da cidade, está debruçado, no muro baixo, o senhor Renato Zanoni, agrimensor no passado e advogado até os dias de hoje. Ele nos conta que a

história do Santo Cruzeiro tem início antes de sua inauguração. Na Vila de Santa Cruz, também chamada de Largo da Forca, atualmente Praça da Santa Casa de Misericórdia, havia em cima do patíbulo* uma enorme cruz pintada de preto, ali deveriam ser depositadas as últimas preces dos condenados à forca em meados do século XIX. Com a abolição da pena de morte no Brasil, o patíbulo foi retirado, mas a cruz ficou como objeto de veneração e devoção e ali os religiosos continuaram pedindo intercessão aos céus pelos anseios do coração.

Em 1922 o poder constituído decide construir um outro lugar para veneração, inaugura o novo Cruzeiro em frente ao Cemitério São João Batista, lugar que abrigaria, mais tarde, os prédios dos três poderes: a Prefeitura, a Câmara e o Fórum.

Na nova praça foi erguida uma outra cruz e a antiga que lembrava os enforcados do Largo da Forca  foi transferida para a capela do Asilo São Vicente. Na mesma época, a cidade foi atingida pela gripe espanhola, responsável pela morte de dezenas de atibaianos. A população ligou os fatos e entendeu a tal desgraça como castigo divino pela mudança de local.

A nova cruz então traz consigo, além da lembrança do martírio de Cristo com as ferramentas da crucificação, a responsabilidade de uma maldição que recaiu sobre o povo. Para Daiane Mavian, guia de turismo de Atibaia, o galo no seu topo representa o arrependimento de São Pedro e exemplifica a passagem bíblica em que Jesus diz ao discípulo: “Tu me negarás três vezes antes que o galo cante”. Já os mais antigos anunciam que o dia em que aquele galo cantar então virá o fim do mundo.

História ao pé da cruz

Zanoni não se atém apenas à história alheia, mas testifica com a própria vida a experiência com a cruz. “Eu precisava operar catarata e tinha medo”. A cirurgia foi marcada por duas vezes, mas o medo desequilibrava a pressão e inviabilizava a intervenção. Ao voltar para casa, passou pelo Cruzeiro e afirmou em alta voz: “O santo que estiver inteiro, eu levo para casa e ele vai me guiar”. “Encontrei a Nossa Senhora da Guia intacta e ela me levou para a cirurgia e em dezoito minutos estava tudo pronto”, conta emocionado.

——

*NOTA: Patíbulo: estrutura, tipicamente de madeira, usada para a execução por enforcamento

 

No aniversário de 337 de Atibaia, o Santo Cruzeiro

ganhou a proteção com o tombamento.

A solenidade está registrada no

Livro de Tombos do Conselho de Patrimônio


+Humanos … +Lugares …

 

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