Web Art em crescimento no Brasil

Imagem

Prof. Fábio FON, pesquisador 

 

Por Cristiane Ferreira

 

Web arte é todo projeto artístico que é pensado através da rede Internet, em regra, desde sua concepção, levando em consideração as especificidades que a rede traz. O autor tem vários textos no site www.fabiofon.com/webartenobrasil nos quais justamente discute as várias facetas desta produção.
É importante dizer que web arte é especialmente expressão e experimentação em rede. Ao contrário do que muitos acreditam, há uma grande diferença entre fazer webdesign e fazer web arte, por exemplo. A arte, por mais que possua uma “mensagem” ou objetivo ou mesmo, seja “engajada” ou crítica, estará sempre em função do seu criador, do seu autor que exprimirá o seu universo interior, sua poética ou suas preocupações estéticas, tal como acontece em outros meios.
O primeiro contato de Fábio FON com a web arte aconteceu em meados de 1997, quando se realizou em São Paulo alguns eventos dedicados ao tema – até então inédito no país – em especial no Instituto Itaú Cultural e na Casa das Rosas. Desde então, passou a se interessar mais por essa produção do ciberespaço, realizando inicialmente uma pesquisa de iniciação científica com o apoio da FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo), ainda durante a graduação em Artes Plásticas na UNESP, em São Paulo. Mais adiante, o tema também esteve presente nas pesquisas de mestrado (UNICAMP, concluída em 2003) e doutorado (USP, concluída em 2007).  O tema também está no livro que foi lançado pelo autor em 2010, chamado: CTRL+ART+DEL: Distúrbios em Arte e Tecnologia, Ed. Perspectiva. Mais de 15 anos depois, Fábio continua como pesquisador da FAPESP atualmente em pesquisa de pós-doutorado, ainda segue nos estudos dessa área.
Há vários motivos que causam o interessasse do artista por esta produção. Mas, especialmente a perspectiva “revolucionária” que se anunciava no final dos anos 90 sobre as mudanças que a rede Internet propiciaria na nossa vida, foi muito decisiva. Era um momento muito interessante: os futurólogos diziam que todos os campos iriam sofrer muitas mudanças, sobretudo as relações de trabalho e de comércio. Era um momento em que se discutia muito a concretização da “aldeia global”, sobre um redimensionamento do mundo totalmente novo para a espécie humana. E Fábio já pensava nas implicações dessa “revolução” para as artes e fazia alguns questionamentos: por exemplo, o que significaria uma arte fora do circuito convencional (museus) e ainda por cima, interativa? Como podemos criar arte para um domínio global, quase infinito?  Como se livrar da simples demonstração tecnológica e trazer elementos poéticos para a rede Internet ?

Segundo o Professor Fábio, hoje há muitos criadores de web arte no Brasil, que são estudados por inúmeros pesquisadores em universidades de quase todas as regiões do país. Os núcleos mais fortes de pesquisa e produção em web arte e arte e tecnologia (que envolvem também outros meios tecnológicos além da internet) estão em universidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Brasília e Goiás.  Fora do universo acadêmico, há também vários eventos que propiciam a discussão ou exibição de obras criadas para a rede Internet, como por exemplo o FILE – Festival de Linguagem Eletrônica, realizado anualmente em São Paulo e outras cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e Porto Alegre.
O Professor Fábio acredita que  toda produção artística – seja tecnológica ou não – deve possuir propósitos provocadores, no sentido de “provocar” algo naquele que a experimenta (vê, ouve, assiste, interage), para o artista muitas obras possuem o papel de fazer-nos conseguir enxergar o mundo de outra maneira. Essa é uma propriedade que boas obras de artes permitem. Isso se estende também para a web arte, que vêm possibilitando que pensemos em outras formas de ver esse mundo tecnológico que nos rodeia.  Isso é uma mudança social bastante significativa, pois estes novos meios precisam ser pensados de outras maneiras além da sua utilização objetiva e cotidiana. A web arte pode propiciar ver o que não é óbvio, ver aquilo que é criativo e especialmente, nos trazer ao universo do sensível e do pensamento.  Essa mudança, por ser sutil, é naturalmente silenciosa e quase imperceptível.

ImagemImagem

Obras de Web Art

Há vários perfis de criadores na web arte. Há uma significativa parcela de artistas que estão vinculados a universidades: são pesquisadores em nível de mestrado e de doutorado, ou ainda, professores doutores que possuem pesquisas na área. Fábio FON sempre está participando de bancas de avaliação e eventos com pesquisadores que têm criado muitos trabalhos bastante significativos do ponto de vista técnico (como tecnologias mais recentes, como o uso de telefones celulares, por exemplo) e do ponto de vista poético, também.

Há também uma parcela bastante importante que é o artista independente – normalmente são artistas jovens que possuem um grande domínio das particularidades da rede Internet, sendo que a Internet é um espaço vivo do cotidiano, tal como o mundo “fora da rede”. Assim é natural criar para esse meio.  Normalmente, esse artista também possui afinidades com outras linguagens – é cada vez mais presente o perfil de um artista intersemiótico, ou seja, que transita entre diferentes linguagens, também realizando performance, desenhando, pintando, compondo poemas ou músicas ou outras ocupações.
O Professor Fábio não se arrisca dizer um número preciso de quantos artistas e obras existem, pois como sabemos, a Internet é um universo bastante fluído e dinâmico, mas acredita que seja entre três a quatro dezenas de artistas entre criadores de diferentes linguagens que fazem uso poético da rede Internet, incluindo autores de linguagens mais específicas como a poesia digital e as Histórias em Quadrinhos Eletrônicas. Eles não são muitos, se levada em conta toda a população conectada, mas, em regra são trabalhos bem realizados, com rigor poético e técnico.
Há também uma importância que é de instaurar uma nova linguagem artística coerente com o nosso momento presente. Isso é muitíssimo importante para as artes. A web arte surge, em primeiro lugar, da necessidade de vários artistas em investigar os meios de sua época: em nossa contemporaneidade a Internet constitui-se em uma significativa quebra de paradigmas em muitos campos do conhecimento e no cotidiano. A web arte naturalmente é reflexo de um mundo conectado, virtualmente distribuído e cada vez mais desmaterializado.
Historicamente falando, podemos citar a Arte Postal (ou Mail Art) como um antecedente importante enquanto ação artística transnacional e, algumas vezes, colaborativa. Ao mesmo tempo, não há como não citar as influências diretas de outros meios em uma nova percepção tecnológica: a televisão, o vídeo, os satélites, o fax, o videotexto e outras situações que instigam novas poéticas.

 

Arte entra em cena nas ruas de Bragança

Alguns integrantes do projeto durante uma de suas intervenções

Integrantes do grupo durante uma de suas intervenções no centro da cidade

Por Cristiane Lustosa e Karen Sarraf

O movimento de pessoas em uma tarde de sábado no centro de Bragança Paulista é grande. Em meio a este cenário urbano, destaca-se um grupo de pessoas sentadas no chão da praça, formando uma roda e no centro dela, um cartaz com a inscrição “fogo”. Eles espetam marshmallows em gravetos e colocam sobre o “fogo”, enquanto um deles pega um violão e começa a tocar uma sequência de músicas populares do tipo Ai se eu te pego, em ritmo de Reggae, chamando a atenção daqueles que estão passando por ali. O lual diurno é parte do projeto Bragança (en)cena na rua, composto por um grupo de artistas que realiza diversas intervenções poéticas pelas ruas da cidade.

O início

Criado em 2011, através do esforço coletivo de artistas e produtores, no intuito de promover a atividade teatral e a formação dos grupos amadores da cidade, o projeto Bragança (en)cena, atraiu amantes da arte que participaram de oficinas com profissionais vindos de fora, desenvolvendo técnicas e compartilhando a experiência de grupos e artistas locais. Em 2013, foi aprovado um edital do Programa de Ação Cultural/ProAC, da Secretaria de Estado da Cultura, que oferece recursos para a produção de espetáculo inédito em cidades de até 500 mil habitantes, tendo como objetivo a montagem de uma intervenção cênica, aliando processos de criação e dinâmicas pedagógicas.

O projeto

Nasceu então, o Bragança (en)cena na rua, que conta com 20 artistas coordenados pelos diretores, atores e produtores Chris Campos, Ivan Montanari e Liana Ferraz. Ivan, formado em Artes Cênicas pela UNICAMP, ressalta a importância do projeto para os integrantes e também para a comunidade local “Nossa intenção é estimular cada um criar sua própria arte e fazer com que aqueles que assistem possam encontrar a sua definição de arte á partir da reflexão”.Diz ainda, que o trabalho exige muito esforço e dedicação por parte de todos os envolvidos. Reuniões são realizadas aos fins de semana, além de contato periódico através do grupo no facebook para discutir o andamento do projeto e criar cenas, que serão testadas nas ruas. Assim vão sendo selecionadas as melhores propostas, que irão compor a série de espetáculos que será realizada em Junho de 2013. Haverá também a participação de bandas, fazendo a interação do teatro com a música.

Integrantes do grupo Bragança (En)Cena durante uma de suas reuniões

Diretores e artistas do Bragança (en)cena na rua discutem as ideias do projeto

Os integrantes

Para Robson Helton, que participa do grupo desde 2011, o projeto é algo novo para todos os integrantes devido aos ambientes inusitados onde se apresentam. “Passamos pela experiência de elaborar estímulos artísticos para pessoas que não foram ali para nos ver, gerando no público uma provocação positiva e um convite a um olhar mais demorado sobre a arte”, complementa. Bruno Novais, integrante do grupo desde agosto de 2011, conta que sua paixão pelo teatro falou mais alto quando resolveu entrar no projeto, que segundo ele é uma maneira de interferir no dia a dia das pessoas. “Interferimos no cotidiano das pessoas e através dessa brecha mostramos um pouco de arte, pois as pessoas em suas rotinas doidas, às vezes não prestam atenção no que acontece ao seu redor”, explica.