Repórteres analisam temas contemporâneos no Brasil

No Brasil é possível ver pobre e rico bem próximos, mas tão diferentes. Foto: Tuca Vieira-SP

No Brasil é possível ver pobre e rico bem próximos, mas tão diferentes. Foto: Tuca Vieira-SP

Durante os meses de agosto e setembro os estudantes de Jornalismo da FAAT resolveram estudar o que denominaram “Temas Contemporâneos” no Brasil. A proposta arrojada contou com uma dinâmica  na qual assumiram vários papéis, a começar por planejadores, depois executivos-editores, bem como pesquisadores, repórteres em coletiva e comentaristas.

O desafio acadêmico proposto pelos professores Osni Dias e William Araújo envolveu duas disciplinas (Planejamento Gráfico e Agência) responsáveis por dimensionar e dinamizar as práticas jornalísticas do Curso na FAAT.

O resultado que pode ser visto na página especialmente criada para isso —”Brasil Contemporâneo“— evidencia uma produção final na forma de um texto sintético, mas o que há de fundamental na visão de todos é a impressão e a certeza que que depois dessa ação, todos tiveram ampliados as habilidades e as competências desta profissão.

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Tags: Pesquisa, Brasil, Contemporâneo


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Por: Diego Piovesan

O brasileiro lê apenas 1,8 livro por ano. A afirmação anterior é do Ministério da Cultura do Brasil, com base na última pesquisa realizada sobre o tema, em 2008. Esse número deixa o Brasil com uma das piores médias de todo o mundo, atrás até mesmo de países como o Estados Unidos, que de 2006 para 2009 teve uma queda de 50% de livros lidos por ano. Contudo, apesar da média nacional ser insatisfatória, na cidade de Bragança Paulista o hábito de leitura é alto – e em constante crescimento.

Com diversas livrarias, uma extensa biblioteca municipal e inúmeros sebos, Bragança Paulista destaca-se em sua atuação no cenário literário da região bragantina. Além das já citadas formas de contato com a literatura, há também a Associação dos Escritores, a Associação dos Escritores Jovens e um edital cultural da Prefeitura Municipal para incentivar e patrocinar obras literárias realizadas por cidadãos bragantinos.

Apesar de não contar com grandes franquias de livrarias, Bragança conta com diversos espaços aptos para oferecer os mais diversos tipos de literatura. Além disso, a tradição das livrarias presentes no centro da cidade permite que cada visita a livraria seja uma experiência diferente. “Existem clientes que sempre passam por aqui e só olham as vitrines. Esses, por muitas vezes, acabam entrando e conversam sobre os títulos novos, pedem indicações… cada cliente é diferente, é uma experiência e conversa única” afirma Isabella Ribeiro, funcionária de uma livraria no centro da cidade.

Não muito longe existe outra livraria, cuja funcionária relata o mesmo entusiasmo ao atender os clientes. “É ótimo trabalhar em uma livraria, pois eu gosto muito de ler e as vezes entram pessoas que não sabem o que levar e eu adoro ajudar e contar as histórias. Também existem clientes que sempre vêem e levam livros e mais livros, aí o jogo vira e são eles que me indicam livros.” relata Viviane Guimarães.

Segundo Isabella e Viviane, as livrarias sempre estão em constante atualização do catálogo e em vendas crescentes “principalmente de julho até dezembro, as vendas aumentam cerca de 40%” conta Viviane.

A experiência literária em Bragança não para por aí, aqueles que não têm como comprar livros podem ter acesso a um acervo de milhares de livros nacionais e internacionais, periódicos ou de ficção, por meio da Biblioteca Municipal.

 De acordo com a bibliotecária o acervo de livros está em constante atualização e cada dia com mais acessibilidade, como é o caso do Projeto Audio Book realizado na Biblioteca, onde voluntários lêem os livros em um estúdio, para que o mesmo fique gravado e disponível para os deficientes visuais terem acesso as mais diversas obras publicadas.

Ainda de acordo com a bibliotecária, a quantidade de empréstimos de livros é cada vez maior, principalmente nos últimos dias do mês. Conforme o controle de empréstimos da bibliotecária, os livros que mais saem são os “Best Sellers” juvenis, como a série Harry Potter e Crepúsculo.

Com um apelo feminista, vampiros jovens misturados a cidadãos comuns enfrentando temas polêmicos na juventude, o livro Crepúsculo, da norte-americana Stephenie Meyer  vem ganhando cada vez mais fãs entre os jovens de todo o mundo.

O romance conta a história de Edward, um vampiro que vive na pequena cidade de Forks e que encontra o seu amor em Bella Swan, uma jovem normal colega de classe do rapaz. O drama vivido pelo casal é movimentado por um grande problema: Edward é um vampiro diferente, ele não bebe sangue de humanos. Crepúsculo (Twilight) é o maior fenômeno literário depois de Harry Potter. O império de Stephenie Meyer, não é tão grande igual ao de Rowling, mas é sem dúvida, grande o bastante para os jovens só falarem de uma coisa: Twilight.

A história de Bella e Edward é um dos livros mais emprestados na Bibliote Municipal e, segundo a bibliotecária, 95% das pessoas que o emprestam são jovens que estão começando a ter intimidade com livros maiores.  A universitária Ana Beatriz Stocco não é diferente. Leitora assídua de livros desde pequena, ela se aventurou por Monteiro Lobato, Alice no País das Maravilhas, Desventuras em Série, Harry Potter e, agora, Crepúsculo. Segundo ela, a saga do vampiro trás um diferencial de tudo que já foi feito até agora: “Pegar personagens perfeitos e mágicos, como vampiros, e colocá-los em coisas tão simples e comuns, como o drama do primeiro amor, é um dos grandes motivos para todo esse sucesso. Coisas tão irreais, como beber sangue e correr a centenas de quilômetros por hora, tornam-se quase do cotidiano, porque são devidamente misturadas com ir à escola, guerras de neve e visitas à praia.” Conta.

O entusiasmo dos jovens o envolvimento com a saga é, segundo a universitária, o que atrai tanto os jovens para a leitura. “Quando há identificação com a história, é mais fácil de apaixonar. Livros são feitos para isso: mostrar que há um lindo mundo de ficção no qual podemos viver as aventuras e dar asas a imaginação” diz a universitária que já leu dez livros só neste ano.

Mas Ana Beatriz não está sozinha nessa empreitada de livros. Os jovens, aliás, são os grandes interessados na leitura e o que fazem alavancar os índices de leitura do Brasil. É o caso de Carlos Eduardo Heinecken, 20 anos, que teve contato com os livros desde a infância e acredita que este é o caminho para resolver o problema dos baixos índices de leitura do Brasil. “Desde que me conheço por gente eu tenho contato com livros. Em casa, antes de saber ler, já tinha livros de desenhos para olhar. Já na escola tive contato desde cedo com histórias que a professora lia. Já na 4ª série a professora de português incentivava a leitura e debate das histórias em sala” conta o jovem. “Acredito que esse tipo de incentivo é o que beneficia e faz com que os alunos tenham interesse pelos livros. Contudo, acho inapropriado forçar alunos que não tiveram muito contato com os livros a lerem, por exemplo, Grande Sertão Veredas logo de cara, pode ser traumático, mas acredito que isso esteja mudando atualmente” analisa.

A idéia de Carlos, e a paixão de Ana, é compartilhada pela advogada e professora de história Alda Batista de Morais, que fez na escola que atua um trabalho de incentivo à leitura. “Ano passado eu lancei uma campanha de incentivo à leitura de livros literários onde cada um dos meus alunos eram incentivados a ler, no mínimo, dois livros por bimestre o que no final do ano totalizariam oito livros lidos. Para cada livro lido ele teria um ponto a mais na média, por bimestre, além do que ficava ao seu critério escolher o gênero literário de sua preferência. Em um universo de mais de 360 alunos, apenas do turno vespertino, menos de um terço dos alunos conseguiram ler oito livros. Estes dados são só para ilustrar o tamanho do problema do incentivo a leitura que o Brasil enfrenta” afirma a professora.

Jovens Escritores

Unidos pela paixão da leitura e da escrita, jovens da cidade de Bragança, jovens uniram-se à seda da Associação dos Escritores de Bragança Paulista e, em 2006, conseguiram espaço e fundos para fundaram a Associação dos Escritores Jovens de Bragança Paulista (ASES JOVEM). De 2006 até o começo de 2011, Gabriela Colicigno foi a diretora responsável pelos jovens escritores e diz ter muito orgulho do trabalho desempenhado na associação. “Não são muitas cidades com uma Associação de Escritores, reconhecida internacionalmente, com concursos enormes, com escritores super premiados e dispostos a ensinar e dar uma chance aos jovens de desenvolverem sua criatividade e seu amor pela escrita. A ASES é assim e a ASES JOVEM também, que promove cursos, encontros e lançamento de livros com os textos dos participantes” afirma Gabriela.

Devido a compromissos com a faculdade, a jornalista em formação deixou a diretoria da ASES JOVEM, que atualmente é comandada por Lucas Lancellotti Sanches, o qual afirma que as reuniões da ASES JOVEM seguem na sede da associação, localizada na Praça Central de Bragança, toda quarta-feira das 17h30 às 19h00 e aberta à população jovem maior de 11 anos que tenha paixão por livros – tanto na leitura quanto na escrita.

O paradoxo brasileiro

Entre os mais de 189 milhões de brasileiros, há cerca de 26 milhões de leitores ativos que lêem pelo menos três livros ao ano. Essa média, dos leitores, já é baixa comparada aos países com igualdade econômica e social ao do Brasil. Já a média nacional é ainda mais alarmante: 1,8 livro por brasileiro, segundo o último estudo da Câmara Brasileira do Livro (CBL). O índice está longe de alcançar países de leitores ávidos, como é o caso da França com a média nacional de oito livros por ano, e também se distancia dos Estados Unidos, cuja média é de cinco livros. O número americano, aliás, caiu em 50% na pesquisa de 2008 se comparar os resultados obtidos dois anos antes.

Contudo, o que se vê no Brasil é um paradoxo: enquanto não temos um público ávido por leitura, nosso mercado editorial de publicações próprias por ano é uma das maiores do mundo. De acordo com o ex-diretor executivo da CBL, Armando Antongini, o total de livros produzidos em toda a América do Sul não chega nem perto da quantidade produzida no Brasil. “Se você incluir o México aos países da América do Sul, aí sim, é um número comparável a nossa produção editorial.” Afirma Antogini.

Sobre a baixa qualificação do Brasil nos índices de leitura, Isabella, Viviane, Alda, Gabriela, Carlos e Ana têm uma só opinião: o Brasil necessita urgentemente de uma ação social para incentivar mais as pessoas ao hábito da leitura e, se depender deles, Bragança Paulista está de portas abertas para auxiliar no incentivo à leitura, fazendo a média nacional, pelo menos, consiga atingir o número expressivo de 5 livros por ano, total hoje alcançado pelos Estados Unidos.

Serviço

A Biblioteca Municipal de Bragança Paulista está situada na Praça Hafiz Chedid, no Jardim América, ao lado da Câmara dos Vereadores. Aos interessados em fazer cadastro para conseguir emprestar os livros, deve levar R.G., CPF, comprovante de residência e duas fotos 3×4. Funcionamento: segunda a sexta-feira das 8h30 as 18h00.

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Este texto é o resultado de uma experiência com possibilidades narrativas, praticada no âmbito da Agência WebjorFAAT.