Voz a que não têm voz

Samuel G. de Oliveira

Em um país onde caiu a exigência do diploma para exercer a profissão de jornalista, alguém precisa fazer jornalismo de verdade. Quando eu falo jornalismo de verdade, falo da profissão em sua missão mais nobre: dar voz ao que não tem voz.

Muitas vezes, idosos que estão esquecidos em casas de repouso e asilos têm muito a dizer. Tiveram uma vida no passado, ainda tem uma vida – pode não ser tão corrida e tão complicada quanto a nossa, mas é uma vida – e muitas vezes muito interessante. Quase sempre são noticiados como vítimas de abusos, maus tratos e abandono, mas nunca como protagonistas, onde são o centro da história..

O brasileiro costuma fechar os olhos para a realidade, sobretudo quando ela choca e mostra uma verdade ingrata. Nós, jornalistas, temos a responsabilidade de mostrar essa realidade doa a quem dor, com a credibilidade e o compromisso com a sociedade, atuando para o bem comum. Devemos elaborar reportagens onde os idosos sejam colocados em um lugar de destaque. Nossa história está nas mentes desses idosos e muitas vezes o assunto é irrelevante para a maioria da população.

Para nós, jornalistas, isso não pode continuar assim. Nosso papel é dar voz a quem não tem voz.

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Voz para o idoso

Felipe Henrique de Oliveira          

 O jornal Folha de S. Paulo publicou, tempos atrás, uma matéria sobre a participação de um morador de rua em uma tribuna na Câmara Municipal, mostrando assim a essência do jornalismo, dar voz ao povo, já que alguém que faz parte de uma minoria teve a oportunidade de se manifestar publicamente.

A importância então de saber o pensamento de pessoas que não possuem tanta facilidade de expor o que sabem nos leva a refletir o porquê de não dar essa oportunidade aos idosos. Estas pessoas têm uma experiência de vida muito grande e, com certeza, podem trazer mais vivência aos jovens. Além disso, a experiência não é algo que pode se comprar, ela é adquirida com o passar do tempo. Decidimos então retratar alguns idosos que vivem uma situação um pouco diferente, vivenciando seu dia a dia.

Após passar uma vida trabalhando, algumas vezes de forma até sofrida, muitos acabam vivendo em asilos ou casas de repouso. Lá podemos encontrar pessoas que nunca tiveram família e até pessoas que foram muito importantes na sociedade. Em Bragança Paulista encontramos ambos os casos. Um senhor com problema mental após sofrer um AVC perdeu a memória e não sabe nada a respeito de sua vida, nem mesmo de sua família. Por outro lado, encontramos um famoso padre da cidade, o padre Donato Vaglio, que já foi homenageado por suas ações e teve seu nome atribuído a uma escola infantil.

Dar voz a estas pessoas não serve apenas para ter mais uma história para contar. Poder partilhar da experiência e da vivência dessas pessoas é importante para que toda a sociedade descubra que, apesar do sofrimento, a experiência deixa essas pessoas mais fortes para enfrentar problemas e dificuldades. Dar voz a essas pessoas e deixar que elas contem suas experiências de vida nos faz então mostrar a verdadeira essência do jornalismo, já que além de informar as pessoas, prestamos também um serviço não só a eles, mas também a toda a população.

Os idosos e a mídia

Charles Teodoro

 Segundo os últimos dados do IBGE, a população idosa brasileira aumentou de 8,8% para 11,1%, demonstrando que o país, além de estar cada vez mais velho, necessita de políticas sociais específicas que facilitem a vida e o bem estar de tanta gente na terceira idade. Um dos aspectos que, aliás, demonstra ser míope no que tange ao idoso, é a omissão do jornalismo impresso. Apesar do seu propósito de investigar, apurar, dar voz a quem não tem, principalmente às minorias cujo verdadeiro ambiente raramente é exposto de forma clara e humanística, isso não acontece.

O que realmente presenciamos nas escassas notícias sobre a velhice  são fatos isolados, reuniões, palestras e congressos em que este tema é abordado, ou algum acidente grave envolvendo o INSS, com o qual infelizmente conta o indivíduo idoso nos males de uma vida doentia.

O fato é que não existe nenhum interesse ativo no meio jornalístico em retratar essa minoria e trazer à tona seus sentimentos, seus objetivos, sua história de vida. Isso porque, com o imediatismo, os interesses econômicos e também o desinteresse individual transformam cada notícia “num pãozinho francês” que a cada dia compramos, mas sabemos que são todos iguais.

Falar sobre determinado grupo requer tato, percepção, sensibilidade para transmitir todos os símbolos e significados que envolvem a vida explicitamente como  ela é.  Muitas vezes, certos grupos dependem desta “visão aguçada” para mostrar à sociedade que é importante. Até porque o ofício do jornalista é ser um espelho que direcione sua luz para todos os lados para que o leitor sinta na sua alma a verdadeira essência dos atores ali apresentados.

Jornalismo, para todos?

Tatiara Torres

 Os catadores de papel têm um papel extremamente importante dentro do contexto econômico e social, mas infelizmente nunca são reconhecidos pelo trabalho que fazem e chegam a ser excluídos por “não fazerem um trabalho significante”, ficando assim longe do foco de interesse (e importância) da população.

Podemos afirmar, com toda clareza, que foram raros os momentos em que este público foi abordado pela mídia, que geralmente está mais preocupada em fofocas das “celebridades” e deixa de lado pessoas que, muitas vezes, vítimas de um sistema desigual, buscam sua renda de um modo mais árduo e penoso, por falta de oportunidades. Será que este não é um tema a ser discutido na mídia?

 Até onde se sabe, o jornalismo tem como princípio “dar voz a quem não tem”, mas, como vemos, assuntos como catadores de papel não estão na ordem do dia e nas conversas de bar. A população geralmente só adjetiva um assunto como “relevante” quando este é agendado pela mídia. Sendo assim, onde estão os ilustres jornalistas para repercutirem isto?

Fazer jornalismo se limita ao ato de exercer a profissão, mas fazê-lo levando em questão a ética, respeitando o leitor e abordando temáticas que façam com que a sociedade caminhe, olhando aqueles que não são assistidos como uma parcela relevante e fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária em todos os sentidos.

Quem fala por eles?

Robson Trujillo Marconi

 Proteger pessoas humilhadas, lutar por elas, é, certamente, meritória forma de agir social, no mundo das injustiças, assim pensa o professor Manuel Carlos Chaparro. Segundo Chaparro, em seu artigo “O Xis da Questão”, que se inicia com o relato de uma reportagem da Folha de S. Paulo sobre o morador de rua que exigiu respeito na Câmara, os que eram oprimidos e tinham pessoas que falavam por eles, agora exigem dignidade e querem soluções.

Em trabalho feito por alunos do curso de jornalismo da FAAT junto ao asilo São Vicente de Paula, na cidade de Bragança Paulista, fica evidenciada a necessidade que algumas pessoas ainda têm de que se fale por eles, neste caso específico, os idosos.

Nos relatos obtidos junto aos idosos, é clara a indignação que alguns sentem não só pelo abandono da família, mas por se sentirem misturados com pessoas que precisam de tratamentos especiais. Talvez seja essa a parte mais desesperadora na vida de pessoas que já tiveram sua importância perante a sociedade e, seja por doença ou falta de condições familiares, vivem agora apenas aguardando “sua hora chegar”, como muitos acreditam, misturados a outros que estão totalmente alienados da realidade e que fazem o sofrimento dos mais lúcidos ser muito mais doloroso.

Num momento em que o país se preocupa apenas com o Pré-Sal, com as Olimpíadas e com a Copa do Mundo, não existe tempo nem espaço para que alguém fale pelos idosos, que realmente precisam de uma voz forte para compensar a deles, já enfraquecida pelos seus gritos perdidos no tempo.

Sejamos jornalistas, e gritemos também com eles.