Rabinovici relembra cobertura de conflitos

Correspondente viu atrocidades e não temia a morte

Rabinovici expôs trajetória de correspondente, atuação que enfraquece frente à tecnologia. FT.:Milca Oliveira

Rabinovici expôs trajetória de correspondente, atuação que enfraquece frente à tecnologia. FT.:Milca Oliveira

Larissa Godoy :: Jobmix-2015

Na década de 60, a ciência mundial é surpreendida pelo descobrimento de um crânio humano de “um milhão de anos”. Esta raridade despertou o interesse da mídia mundial, e colocou uma Escola Amadora de Arqueologia no circuito arqueológico do planeta. Tal feito seria um marco, se a notícia não estivesse errada. O crânio era de 10.000 anos da época pré-colombiana de Minas Gerais, mas ainda assim bastante significativo. Coube ao jovem de 17 anos, Moisés Rabinovici desmentir a informação  publicada no jornal Ultima Hora, de Minas Gerais. “Exijo a verdade para o bem da ciência”, teria dito Rabino —como é conhecido—, na Redação do periódico mineiro Ultima Hora, quando foi convidado para sentar e fazer o texto de correção. Nessa ocasião, foi imediatamente convidado para integrar a equipe de reportagem.

A partir desse primeiro contato com o jornalismo, Rabino começou a trabalhar no jornal de Samuel Wainer. Foi para desmentir uma mentira, e acabou ficando para desvendar verdades. Cavando histórias tal qual um arqueólogo faz para descobrir fósseis antigos e esquecidos, o jornalista Rabinovici abriu a 10ª edição do JobMix da FAAT Faculdades, nesta segunda- feira,26. Os alunos do curso de Jornalismo acompanharam ávidos as histórias do correspondente de guerra que viajou o mundo para expor as verdades dos conflitos.

O lobo solitário, como se auto-designa, com seus 50 anos de carreira completados na segunda-feira e comemorado com os alunos da FAAT, mostrou um pouco de seu trabalho feito ao redor do mundo. A lista é grande. Ruanda, Israel, Quênia, Zimbabue, Africa do Sul, Iugoslávia, Macedônia, Panamá. Reuniões do FMI, Casa Branca, Senado, Nasa. A correspondência proporcionou a Rabinovici a oportunidade de entender conflitos tão complexos que até os atores envolvidos tinham dificuldade de compreender. Esbarravam em rancores milenares e, diante disso, procuravam elucidar e remeter para os brasileiros as informações de uma maneira inteligível.

Rabino contou sobre um episódio quando entrevistou um ex-coronel israelita que perdeu as duas pernas eos braços em uma explosão. As terras são até hoje reivindicadas pelos judeus e palestinos. Do lado judeu, ouviu que o pertencimento das terras lhes cabe devido a pessoa de Abrãao. Do lado palestino, a terra era vista como um legado de pais, avós, bisavós e tataravós enterrados nas terras de sua propriedade.

Ouvir os dois lados foi o primordial para Moisés Rabinovici  —que trabalhava com telex, viu os primeiros laptops invadirem as redações dos jornais, e a tecnologia ser o primordial nos dias de hoje. “Não se cobre a guerra como antes. Hoje a guerra é um video-game. Os jornais fazem acordos e dividem correspondentes”, disse. Moisés Rabinovici destacou a redução das páginas internacionais nos periódicos. Quando o assunto é sobre os vizinhos há um interesse público, disse ele. “Mas ao sair desse eixo, o repórter como conheço, está em extinção.”

Um dos fundadores do Jornal da Tarde, Rabino tentou empregar um conceito editorial e gráfico a fim de sair da mesmice da imprensa brasileira. No JT ele harmonizava o título, texto e a foto em uníssono. A notícia era oferecida como um produto de interpretação e não apenas um amontoado de informações. “Numa época de crise, só vai ganhar quem for singular. Quem sair da mesmice. Hoje, não há criatividade. A busca pelo sensacionalismo onde não existe proporciona um desserviço ao leitor, aponta”.

O experiente jornalista contribuiu com um aconselhamento aos alunos presentes: “o repórter tem que ser alfabetizado na tecnologia, precisa dominar o inglês. Entender a tecnologia,e poder decifrar os “big datas” é estar um passo à frente de ser um bom jornalista moderno.”

Na noite chuvosa de segunda-feira, o lobo solitário pode comemorar com um pequeno mas participante grupo de futuros jornalistas suas bodas de ouro no Jornalismo. E, tão sereno quanto entrou no auditório, o senhor de fala calma e simpática, foi-se com sua bolsa bege no ombro, camisa verde e seus óculos redondos.

Identidades

Alguns dos muitos documentos de identificação utilizados pelo repórter em sua trajetória e que permitia trânsito livre e nem sempre seguro pelos países e áreas de conflito.

Ids-Rabinovici-edit

Documentos utilizados por Rabinovici quando atuou pelo O Estado de S. Paulo. Acervo do Repórter


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