Teoria e prática move democracia brasileira

Técnicas conduzem para um processo de transformação na cultura política

Diversas etnias indígenas negociam em Brasília, conflitos de terra. Fonte: Elpaís

Etnias indígenas negociam em Brasília, conflitos de terra. Fonte: Elpaís. Foto:Zeca Ribeiro

Sabrina Duarte

A área da teoria política agrega contribuições no que diz respeito ao que deve ser de fato cumprido pelo governo, abrigando um pluralismo de perspectivas ideológicas e visões de mundo. Envolve também o esforço de reflexão crítica sobre realidade e a projeção do dever e da ordem. Por sua vez, a teoria política é um empreendimento intelectual que percorre toda a trajetória das sociedades ocidentais e é indissociável da construção histórica dessas sociedades como comunidades propriamente políticas.

A área da teoria política, normalmente acompanhada das reflexões sobre a história do pensamento político, vem se consolidando a cada ano na ciência política brasileira. Com isso, levanta questões acerca do desenvolvimento da prática política, da investigação de ideias e conceitos políticos centrais, suas mudanças em dada época ou sociedade e os embates ideológicos situados em contextos históricos específicos.

A democracia que deveria ser colocada em prática pode ser entendida como a interligação da livre operação do sistema político com o sistema de normas, valores, crenças e tradições culturais que predomina no interior desse mesmo sistema político. Por esse motivo, consiste na compreensão e aplicação das teorias dentro da sociedade.

A democratização, neste caso, estabelece a consolidação de uma ação política democrática no nível da sociedade civil e do sistema político, pois coloca em prática a resolução de conflitos e interesses divergentes. Porém, existe uma lacuna entre a teoria formal e a incorporação da democracia às práticas cotidianas dos agentes políticos. Na prática, o regime democrático se contraria muitas vezes com sua própria concepção teórica.

A prática política cotidiana pode ser considerada ética no momento em que haja coerência com os valores de sua teoria, quando luta por uma sociedade mais justa, igual e livre. Está presente na realidade dos cidadãos a partir de ações diretas de autogestão, nos setores sociais e populares, agindo com princípios, métodos e linha política em prol de uma sociedade.

É compreendido como ético um governo que aplica valores que conduzem a construção do poder popular e da transformação coletiva, contribuindo para uma o melhoramento social, político e econômico. Nesse sentido, os mais diversos problemas e contradições vão estar presentes nas dinâmicas das lutas ou nos processos revolucionários. Há inúmeros exemplos históricos, nos quais a proposta teórica de um governo não contribuiu para o progresso. A partir daí começa a luta da sociedade contra o sistema de dominação e exploração.

Levando em conta o cenário de um país como o Brasil —com registros de diferentes formas de autoritarismo, exclusão social, injustiças e desigualdades—, as práticas dominantes, neste caso, não são puramente democráticas. A condição de desigualdade social vem se confirmando, dividindo a sociedade em vários segmentos e circunstâncias, mas pouco é feito para alterar essa realidade hierárquica.

A realidade da democracia social hoje ainda é muito frágil, pois o modo de produção capitalista passa por uma mudança profunda para resolver a recessão mundial. Essa mudança conhecida como neoliberalismo, implicou o abandono da política do estado do bem estar social e o retorno à ideia liberal de autocontrole da economia pelo mercado capitalista.

O processo de identificar e mudar as práticas do sistema de opressão e dominação não é algo que ocorre da noite para o dia. Mas é dever da sociedade estar atenta e agir de maneira crítica, lutando pelos seus direitos, colocando posições, opiniões e contextualizando críticas em vez de generalizá-las a toda uma corrente, grupo ou ideologia.

No Brasil e em outras democracias, onde as estruturas e processos políticos estão sujeitos a transformações contínuas, cresce o número de estudos específicos realizados em vários segmentos sobre o assunto. Abrem-se então possibilidades para que a sociedade, através de informações uniformes, compreenda de forma consistente o processo político e saiba os seus direitos.

O debate, dizem os teóricos, deve ser encarado como importante ferramenta organizativa, postas a serviço da prática e tendo também como ponto de partida, seja nos níveis político ou social. É preciso empregar todos os esforços para aproximar, cada vez mais, a teoria da prática. A teoria está fundamentada em atuar na realidade, e o progresso é fruto das lutas cotidianas do povo.

A democracia sempre foi um ideal de vida em sociedade, desejado pelos povos em lugares e épocas. Sob a ótica do proletariado, a democracia é um mundo de justiça social que ainda se apresenta distante de muitos países, mas que não deve ser perdido de vista em nenhum momento. A verdadeira democracia é uma realidade ainda não atingida, mas que poderá ser alcançada com uma transformação radical da ordem estabelecida, ou seja, somente é possível fora das relações sociais capitalistas.


 

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“Onde houver uma história a ser contada, lá estarei”

Takada encerra semana com boas histórias e um olhar poético sobre moradores de rua

 Jean Takada destacou a pesquisa em seu trabalho de imersão

Pesquisa foi destaque em seu livro; para o autor uma palavra resumiria o trabalho: humanidade

Paulo HD Silva

A FAAT Faculdades encerrou a Semana de Comunicação – Jobmix na quarta-feira, dia 28, com a palestra ministrada por Jean Takada, jornalista e designer gráfico, formado pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).

A princípio, Takada contou que desde criança gosta de ouvir histórias, principalmente sobre pessoas, o que mais tarde o levou a tomar duas decisões importantes em sua vida: cursar jornalismo, firmando-se como contador de histórias reais, e empreender um projeto sobre moradores de rua.

O livro “Delírios, histórias e relatos no Centro Velho de São Paulo”, idealizado por Jean em 2012, lança um olhar humanizado e poético sobre moradores de rua com transtornos mentais, ao passo que denuncia as condições desumanas que estavam sujeitados, em virtude do abandono por parte de familiares e poder público.

O jornalista conta que a iniciativa surgiu em uma de suas andanças pelas proximidades da Catedral da Sé, quando avistou uma moradora de rua chamada dona Olivia. Idosa e esquizofrênica, passava os dias a gritar e puxar os cabelos, enquanto convivia com a indiferença dos transeuntes. Era, pois, a temática que faltava a Takada.

Buscou referências no censo de população de rua, nas políticas públicas, legislação, e literatura específica. Deparou-se com estimativas duvidosas, políticas públicas ineficazes, e leis obsoletas. Encontrou justificativas na literatura, embasando-se nos estudos de Michel Foucault, e inspiração nas crônicas do escritor João do Rio, que foram reunidas na obra “A alma encantadora da rua”, publicada em 1908.

Com a câmera nas mãos e uma ideia na cabeça, Jean passou a interagir com personagens do Centro Velho, registrando os relatos que eles lhe contavam, independentemente, se fossem lúcidos ou não. “Misturavam realidade com ficção, mas ainda assim documentei da maneira como ouvi, para que o público embarcasse também nessas histórias”, relembra.

Entre os personagens que o jornalista encontrou pelas veredas do Centro Velho, destacam-se: Edvânia e suas três personalidades: jornalista, atriz e dançarina; a tailandesa Milba, que viajava pelo mundo através de seu passaporte mágico, e estava no Brasil para ajudar a resolver os conflitos civis; o escritor Hamilton, que buscava nas ruas o anonimato necessário para escrever seu livro sobre espiritismo;  Da Lua e seu carrinho de bebê, utilizado por ele como cama; o gentleman Toni Belo, sempre  trajado com elegância e garbo; entre outros.

Perguntado sobre a história que mais o tocou, Takada não tem dúvidas em recordar de Reginaldo dos Santos. Descendente de índios, relatava uma história de vida confusa e sem muitos detalhes. Se dizia órfão, de modo que fora criado por freiras num orfanato, e o sobrenome “dos Santos”, elas haviam lhe dado para protegê-lo de todos males mundanos. Transitava pela Rua Bento da Boa Vista em uma motocicleta invisível. Contudo, o fato mais peculiar em Reginaldo, era que ele não se deixava ser fotografado, pois segundo as tradições e mitos indígenas que trazia consigo, “ a fotografia poderia roubar-lhe a alma”.

Posteriomente, Jean reuniu, no livro Delírios, crônicas sobre dez personagens que entrevistou, e disponibilizou a obra gratuitamente na plataforma Issuu, além de também manter uma página no Facebook, sobre esse projeto.

Atualmente o jornalista tem dedicado seu tempo ao projeto “Gente de Atibaia”, que busca registrar e tornar público típicos personagens regionais e suas respectivas histórias. “O intuito desse projeto é valorizá-los, evidenciando suas particularidades. É um projeto que não terá fim, pois onde houver um personagem icônico e uma história a ser contada, lá estarei eu para registrá-los. Esse é um trabalho tenho imenso prazer em realizá-lo”, revelou, entre sorrisos.


 

Uma outra REALIDADE

Mylton Severiano: uma  Realidade recontada pelo seu editor

Mylton Severiano: uma Realidade recontada pelo seu editor

William Araújo
O autor da obra “Realidade: história da revista que virou lenda”, Milton Severiano da Silva, defende uma tese contundente: “a ditadura não acabou no Brasil”. Ele acentuou essa idéia ao ler a orelha do livro de sua autoria lançado recentemente, deixando no ar uma dúvida: “… se a ditadura que matou Realidade já acabou, então por quê?” … não se faz mais revista com esta?
Sua resposta em diálogo com os estudantes de Jornalismo da Faculdades Atibaia-FAAT (23/5) é a de que a ditadura hoje é disfarçada, pois está no monopólio que padronizou os produtos e não permite controvérsias.
EXEMPLOS
Nesse sentido, citou alguns exemplos, como o fato da mídia estar nas mãos de algumas famílias e de políticos. Para ilustrar, mencionou o processo contra o blog “Falha de S. Paulo“, uma paródia ao veículo Folha de S. Paulo, bem como o processo movido contra o Estado de S.Paulo para que o mesmo não publique matérias sobre a “operação Boi Barrica” que envolve o filho de José Sarney. Ao seu ver, quando isso acontece é sinal que “está tudo dominado”.
Pior que isso, destaca Severiano, é o fato de haver muita impunidade. Hoje, até membros da Suprema Corte parecem estar envolvidos em escândalos.
Na política então nem se fala. Severiano mostra seu desagrado como o modelo de eleição representativa adotada no país, acentuada por uma quantidade de partidos absurda. Ao seu ver, o que existe mesmo é um “arremedo de democracia”.
Saída para isso não parece estar em outra revista Realidade, mas sim na ação de todos utilizando os veículos disponíveis. Sua recomendação é de que todos “twitem”, “blogueiem”, “facebookeiem”, num verdadeiro trabalho de formiguinha.
VIGOR
Na realidade, Mylton Severiano da Silva continua bastante sintonizado com o jornalismo da época da Revista Realidade. Seu desejo de mudança para melhor é visível e ecoa em cada palavra que esboça. Bem informado e crítico, deixou bem claro a falta que faz publicações como esta.
Mais que isso, expôs que Manchete espionava o que faziam para tentar “furá-los” (jargão jornalístico que significa noticiar algo com exclusividade), mas no fundo era uma revista de consultório dentário. Cruzeiro também tentou seguir a pegada de Realidade, e entende que as únicas revistas que fazem algo nessa linha são a Caros Amigos e a Piauí, sendo esta última mais soft.
LIVRO
Sobre o livro, foi bastante franco, no bom sentido: “Sobrou para mim escrevê-lo”, pois ninguém o faria. Depois que recebeu das mãos de Paulo Patarra, realizou entrevistas com as maioria dos envolvidos com a revista na época do período militar. As editoras Cia das Letras, Geração Editorial e Record não se interessaram, mas a Insular resolveu aceitar o desafio. Aliado a isso, vê também no setor livreiro problemas semelhantes aos que ocorrem na  mídia, ou seja, nichos de poder que impedem que as obras sejam distribuídas em nível nacional, o que acaba encarecendo ainda mais este segmento.
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O livro pode ser adquirido na Editora Insular
Livro mostra inteligência do jornalismo em tempos difíceis

“O Drama da Maternidade Precoce” aborda tema pouco explorado na cidade de Atibaia

Por: Maria Thereza L. Basile

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Em seu livro-reportagem, Cleonice de Oliveira propõe desmistificar dois assuntos que são considerados tabus na cidade de Atibaia, a gravidez e o aborto na adolescência. Além de tentar fazer com que os âmbitos da política, mídia, educação e saúde possam estar mais atentos e debater sobre a criação de políticas públicas voltadas a saúde e os cuidados com a adolescente grávida.

Através de pesquisas em sites de artigos científicos, percebeu que todos os textos que leu tinham um teor de alerta, pois a gravidez precoce é encarada como problema de saúde pública no Brasil e no mundo. A principal dificuldade enfrentada por Cleonice foi a de encontrar números relacionados ao aborto na adolescência em Atibaia. Pois, a secretária de saúde, Rita Bergo, e a secretária adjunta da Secretaria de Desenvolvimento Social, Márcia Zigaib, não puderam disponibilizar por falta de arquivos e meios que constassem esta informação.

Cada capítulo do livro descreve de forma diferente o cenário da gravidez e aborto na adolescência. Como Cleonice já sabia, previamente, o que iria descrever em cada capítulo, montou grupos de possíveis entrevistados que iriam fazer parte de cada capítulo. Primeiramente, fez a parte de pesquisa científica sobre o que iria falar, depois as entrevistas com os profissionais de saúde e por último as entrevistas com as adolescentes que iriam fazer parte do capítulo correspondente.

“De princípio achei que muitas pessoas iriam declarar ser contra a descriminalização do aborto, porém a maioria afirmou ser totalmente ou parcialmente a favor da descriminalização do aborto. Outro ponto que me surpreendeu foi o fato de que a Administração do município trata a gravidez e o aborto na adolescência como inexistente. Não existem programas cedidos pela Secretaria da Educação ou da Saúde sobre prevenção da gravidez precoce. E muito menos de prevenção contra o aborto. E por último, também me deixou surpresa saber que o conservadorismo ainda existe em Atibaia, infelizmente, bloqueando programas que poderiam melhorar a vida das adolescentes gestantes”, relata Cleonice.

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Segundo Oliveira, o que a fez ter vontade de se aprofundar mais no assunto foi saber que, quanto mais investigava sobre a gravidez precoce e especialmente sobre o aborto em Atibaia, mais coisas descobria. Na grande maioria eram descobertas falhas e não trabalhos bem realizados. “Gosto de falar sobre assuntos que carregam bastante crítica, o aborto é um deles”, explica.

Colocar o aborto na adolescência em pauta, na cidade de Atibaia e descortinar o delicado processo das adolescentes grávidas do município, não foi uma tarefa simples. O município, de forte tradição religiosa, tem perfil considerado conservador, inclusive no que se refere a posições políticas-ideológicas. Dessa forma, é pouca a luz lançada sobre a questão. A presença de estudos científicos, de debates públicos (com atuação de agentes políticos) e mesmo da mídia é escassa quando se fala de aborto. O tema é tabu. Apenas surge como notícia nas páginas policiais, nos momentos em que a mulher que escolhe abortar é criminalizada.

Para Cleonice, além do conhecimento que adquiriu sobre o assunto, a construção deste livro-reportagem pode ser uma oportunidade para que a administração da cidade possa olhar a gravidez precoce com mais seriedade, já que é uma questão de saúde pública. “Pretendo doar um exemplar deste livro para a biblioteca da cidade, para que alunos possam fazer suas consultas, pois acredito que poucos são os livros que falam sobre gravidez na adolescência”, finaliza.

“Os Limites da Desigualdade” demonstra realidade delimitada pela Autopista Fernão Dias

Por: Diego Piovesan

MayraCoverLivroFoto: Divulgação

“Não houve muita dificuldade em encontrar pessoas que pudessem contar sobre a triste realidade vivida nos bairros”. É o que afirma a jornalista Mayra Haron Bondança que na quarta-feira, dia 05, apresentou o seu trabalho à banca avaliadora na Faat Faculdades.

O trabalho social da jornalista foi de encontro com a realidade latente da autopista Fernão Dias como separadora de águas. A realidade demonstrada, e vivenciada pelos cidadãos de Atibaia, é uma exclusão feita a partir da Fernão Dias. De um lado, a riqueza e o desenvolvimento industrial e econômico da cidade. Do outro, a pobreza e a periferização em constante crescimento.

Haron vivenciou uma experiência beirando ao jornalismo gonzo e esteve, por diversas vezes, acompanhando o dia a dia daquela comunidade atingida por enchentes e vítimas da falta de infraestrutura e atenção do Poder Executivo local.

Uma das dificuldades da jornalista foi conseguir fontes oficiais, ainda mais pela realização do trabalho se decorrer no ano de 2012, quando as atribuições públicas estavam voltadas para as eleições municipais, dificultando o trabalho de pesquisa. Para tanto, a medida adotada pela jornalista foi do distanciamento de fontes oficiais e a aproximação de representantes da comunidade.

20121205_185837Foto: Diego Piovesan

Com relação à rodovia Fernão Dias, Haron afirma ter dificuldades em encontrar fontes bibliográficas. “Foi possível apenas encontrar informações em trabalhos de faculdade e pesquisas, mas não de forma muito profunda”, conta.

Este não foi o único problema enfrentado pela jornalista. As análises das consequências da construção e duplicação da estrada foram levantadas pelo estudo, mas sem o apoio de estudos bibliográficos já existentes, o que comprova o ineditismo do livro-reportagem.

O livro-reportagem “Os Limites da Desigualdade”, de Mayra Haron, foi publicado em 2012 pela editora Clube de Autores. O livro pode ser adquirido em formato digital (e-book) ou em formato impresso através do endereço eletrônico: http://clubedeautores.com.br/book/137494–Os_Limites_da_Desigualdade .