Futuro do jornalismo passa pelas organizações independentes

Criatividade e inovação marcam a nova era da profissão em busca do despendimento com a velha mídia

 Larissa Godoy e Roberta Damiani

Percursora no Brasil, a Agência Pública criou bolsas para a produção de reportagens.  Foto: Catraca Livre

Percursora no Brasil, a Agência Pública criou bolsas para a produção de reportagens. Foto: Catraca Livre

A globalização não apenas culminou o que Marshal McLuhan classificou como “Aldeia Global” como também propiciou o surgimento de um novo e ao mesmo adaptado jornalismo. Com a interação entre produtor e receptor, o jornalismo teve que se adaptar com as novas demandas surgidas com a internet. A maior participação do público nas etapas de produção jornalísticas diminuiu o espaço entre jornalistas e público, mesmo com relutância e imperícia da grande mídia em se modificar nos novos tempos do século XXI.

É inegável que as grandes corporações e empresas ainda se veem no topo da cadeia alimentar jornalística, sendo as responsáveis por agendar os assuntos para a população. Entretanto, contrários a tal prepotência e na tentativa de tirar o melhor proveito das qualidades dos novos tempos, o jornalismo independente propõe ir de encontro a todos os mitos reforçados pelas mídias que regem e ainda clamam o Quarto Poder.

Para Leonardo Sakamoto o maior desafio e motivação é a produção de bom conteúdo. “O mais difícil é produzir conteúdo. Na internet tem uma grande quantidade de blog e site que apenas repercute conteúdo”, disse numa palestra na USP.

O jornalismo independente é um setor ainda em seu estágio inicial, mas que já colhe os frutos de seus trabalhos. A Agência Pública, pioneira no Brasil, com suas reportagens cirúrgicas, coleciona diversos prêmios desde o ano de 2012, como o Prêmio Latinoamericano de Periodismo de Investigación, da Fundación Instituto Prensa Y Sociedad, entre muitos outros. Além de produzir, a Pública busca promover o jornalismo investigativo, através de programas de mentorias para jovens jornalistas. Na agência, os repórteres propõem suas pautas e é com base nas escolhas do público que define-se qual reportagem será feita.

“É disciplina, é reinvenção, é desgaste, é cansaço, é ter ideias. É perceber como irei reinventar meu dia a dia”, disse a jornalista Vanessa Rodrigues durante o encontro realizado pela fundação TEDx em Portugal, onde discutiu-se o futuro do jornalismo independente.

A postura colaborativa em relação ao público mostra por qual caminho o jornalismo independente avança, diferentemente dos grandes veículos que presos a uma filosofia editorial antiquada defendem os interesses pessoais e políticos de seus donos.

Contudo, o jornalismo independente mais do que liberdade editorial, oferece a oportunidade de jornalistas recém-formados praticarem as teorias e técnicas que aprenderam na faculdade, e a de jornalistas veteranos o de renovar suas esperanças na profissão que significa muito mais do que apenas o feito nas enxutas redações. Como dito, o futuro do jornalismo passa pela criatividade e inovação.

Duas características presentes nas agências e coletivos desmistificam a fala de diversos especialistas que há anos afirmam que o leitor está cada vez mais desinteressado em reportagens longas e profundas, e que sim, ele está proposto em pagar para ter um conteúdo exclusivo e bem feito. O meio pelo qual diversos coletivos e agências colhem recursos para a realização de seus trabalhos.

O crowdfunding é utilizado não apenas no jornalismo, mas tem como base o lançamento de projetos independentes, como livros, CDs, entre outros. E o crowdfunding já mostrou resultados positivos no exterior. Na Holanda, a iniciativa do jornalista Ernst Jan-Pfauth com o De Correspondent, é a exemplificação de um espaço bem sucedido no jornalismo independente. Lançado em setembro de 2013, o projeto conseguiu a curto prazo números satisfatórios, com um número inicial de 18.933 assinantes, e num espaço de um ano a totalização de 28.000 assinantes. Sendo que mais de um terço já havia renovado a assinatura de um ano.

O sucesso do De Correspondent, certamente, é decorrência de uma filosofia editorial honesta e transparente. Os holandeses, como disse o criador em seu artigo no Medium (inglês), “Não temos nenhum anunciante para agradar, então podemos focar apenas nas necessidades dos nossos assinantes. Nossos membros deixam claro que eles gostam de saber como nós estamos gastando o dinheiro deles. Isso também leva a algumas discussões interessantes sobre como uma publicação deve priorizar em seus gastos”.

 


 

Fausto Salvadori Filho, jornalista é um dos contribuidores na Agência Ponte Foto: Facebook

Fausto Salvadori Filho, jornalista é um dos contribuidores na Agência Ponte 

Natural de São José do Rio Pardo,  Fausto Salvadore Filho, formou-se jornalista na UNESP de Araraquara no ano de 1999. No ano seguinte mudou-se para a capital para trabalhar em uma empresa de jornalismo em web. Em 2013, ganhou a menção honrosa no prêmio Vladmir Herzog, com a reportagem “Em busca da verdade”, publicada na Apartes – revista da Câmara Municipal de São Paulo. Em seus 15 anos de jornalismo passou por grandes organizações, como o portal UOL, jornal Agora São Paulo, bem como na comunicação interna da Câmara Municipal de São Paulo, além de ser colunista em publicações dos grupos Globo e Abril. Hoje, é um dos repórteres da Agência Ponte, pioneira no jornalismo independente brasileiro. Conversamos com Fausto sobre o papel da profissão nos dias de hoje e como o jornalismo do futuro passa pelas organizações independentes.

 

 

 

 

Como o jornalismo independente tira o melhor da internet para a mobilização, coisa que a grande mídia ainda não conseguiu fazer?

Não estou certo de que o jornalismo independente esteja melhor do que a grande mídia na relação com a internet. Tenho a impressão de que, nessa área, todos estão ainda engatinhando em busca do grande desafio que é aprender a usar os verbos do momento: “engajar”, “mobilizar”, “viralizar”. A internet está cheia de sites que conseguem enormes audiências sem produzir conteúdo. Esses caras, que viralizam e fazem memes apenas remixando conteúdo alheio (como Emerson Spartz, tema dessa reportagem da New Yorker, que também está na última Piauí), é que entendem de mobilização. O desafio, tanto da grande mídia (veja o tão falado relatório do New York Times) como da mídia independente, é descobrir como gerar mobilização com conteúdo socialmente relevante. É o desafio que a gente se coloca na Ponte. Falamos de assuntos desagradáveis. Racismo, gente morta pela polícia, tortura. Como fazer as pessoas se interessarem em compartilhar esse conteúdo da mesma forma como compartilham vídeos de gatos?

Com essa mudança que o jornalismo está passando, qual o futuro que você vê para o jornalismo?

O jornalismo é mais necessário do que nunca. O trabalho de ir aos lugares e às pessoas e contar ao mundo o que você viu e ouviu continua a ser fundamental, O que muda é que surgem novas maneiras de fazer isso. O modelo da grande corporação de notícias passou a conviver com outras formas de produzir informação, que incluem coletivos de jornalistas, comunicação pública, documentários etc. O que a gente acredita na Ponte é que sempre vamos precisar de jornalistas profissionais. Gente que pode dedicar tempo e recursos para contar sua história, da mesma forma que qualquer cientista precisa de recursos para pesquisar um tema. Não dá para fazer bom jornalismo contando apenas com o trabalho amador, feito nas horas vagas.

Como você chama a atenção para uma grande reportagem na internet, sendo que existe um mito que as pessoas não leem grandes textos na internet ?

Esse mito já existia antes da internet. O impresso, especialmente no Brasil, vinha diminuindo seus textos alegando que as pessoas não gostam de ler. Cada reforma gráfica feita pela Folha de S. Paulo, por exemplo, diminuía em mais ou menos um quarto a quantidade de texto do jornal. Tem vários exemplos que desmentem esse mito. A revista Piauí é um. Na internet, os artigos da Eliane Brum geram muita leitura mesmo sendo enormes e complexos.

Eu sempre achei esse um jeito preguiçoso de encarar a questão. As pessoas não gostam de ler textos ruins. Ponto. Como dá trabalho produzir textos bons, os editores preferem encurtar os textos ruins para que as pessoas reclamem menos. Mas já faz milhares de anos que todo tipo de contador de histórias, sejam trovadores, dramaturgos, escritores, roteiristas, poetas, vem desenvolvendo técnicas para prender a atenção de um ouvinte/leitor/espectador e garantir que ele acompanhe uma história ao longo de centenas de páginas, ou de dezenas de horas. Dá para aprender a envolver as pessoas com textos longos sem reinventar a pólvora.

 O jornalismo independente defende um processo mais horizontal na produção de noticias. Como funciona na pratica essa interação? Como o cidadão participa democraticamente num processo que em si já é algo fechado?

Não sei se a horizontalidade é um valor de todo o jornalismo independente. Falando apenas por nós, a horizontalidade é um valor fundamental para a Ponte. Os jornalistas que participam do projeto têm todos a mesma autoridade. Não temos chefes. Em vários momentos fazemos reuniões com movimentos sociais para avaliar nosso trabalho e repensar nossas pautas.

 O jornalismo independente procura explorar debates que estão longe da grande mídia. Pautar assuntos que afetam uma minaria sem voz. Isso é tomar um dos lados, ou praticar o jornalismo em sua essência?

Acredito que as regras do bom jornalismo valem para todos. Aqui como no Estadão, a gente se propõe a verificar as informações que recebemos e a ouvir o máximo de lados envolvidos numa questão. Ao mesmo tempo, a gente assume o compromisso de estar ao lado das vítimas de opressão, não dos opressores, sem que isso signifique distorcer informações ou fazer apuração preguiçosa. Não fazemos assessoria de imprensa de movimentos sociais. Fazemos jornalismo. É importante reconhecer qual é o seu lado. Quem se coloca “acima dos lados” muitas vezes acaba, na prática, ficando do lado do opressor.

Propor ir a lugares que a grande mídia já não vai mais é ir contra o que ela representa? Ou ocupar um espaço que ela já não ocupa? O jornalismo independente nasceu de uma deficiência da grande mídia ou uma deficiência da sociedade que precisa reaver a consciência critica?

As duas coisas. O excesso de cobertura que a grande mídia faz do centro expandido, em detrimento da periferia, é um reflexo de como a própria cidade se comporta. Em relação à periferia, aos negros, aos indígenas, às comunidades, a grande mídia, de modo geral (sempre há exceções, e das boas), comporta-se exatamente como a polícia, os parlamentares, o Judiciário, as prefeituras, o Ministério Público…


 

Financiamento diminui fronteiras entre produtor e público

Crowdfunding é um conceito de que várias pessoas contribuam com alguma quantia em dinheiro para a realização de um projeto, um evento, etc. A contribuição não precisa ser feita com altas quantias em dinheiro, doações baixas (R$ 10,00 por exemplo) também são feitas. Hoje o crowdfunding é usado para várias vertentes, como o jornalismo independente, campanhas políticas, ajudar algum artista ou ajudar regiões atingidas por desastres. Qualquer pessoa pode criar seu projeto para pedir financiamento, basta ter um projeto em mente e ser aprovado pelos criadores do canal.

O Atibaiense quer manter credibilidade de 113 anos

Imagem da primeira edição de O Atibaiense

Primeira edição do jornal publicada em 1901. (Foto: Reprodução acervo O Atibaiense)

Lucas Rangel

113 anos e 8.399 edições publicadas. Dados que fazem do jornal O Atibaiense um dos mais antigos e tradicionais do Estado de São Paulo. Fundado pelo jornalista Antônio Silveira Maia, em 17 de Janeiro de 1901,  o veículo é um dos maiores exemplos da força que a mídia impressa ainda possui, principalmente no interior. Com o avanço constante da tecnologia não se pode parar no tempo. O Atibaiense não o fez e segue no trabalho para manter bem informada a população de Atibaia. Entre as principais coberturas estão a inauguração da rede telefônica, em novembro de 1901, a abertura do então chamado Grupo Escolar, em 1905, a instalação da rede elétrica em Atibaia, em 1907, a construção da Santa Casa de Misericórdia, em 1914, e o retorno dos atibaienses que participaram das batalhas da Revolução Constitucionalista, em 1932.

Edição colorida do jornal. (Foto: Reprodução O Atibaiense)

Edição colorida do jornal. (Foto: Reprodução O Atibaiense)

Durante os primeiros 73 anos a produção era feita em tipografia, ou seja, o alfabeto era gravado em peças de chumbo. Frases, palavras e parágrafos eram montadas em uma caixa especial onde o tipógrafo formava os textos. Em 1974 a elaboração passou a ser feita em linotipos. Fotos, desenhos, logotipos de anunciantes e imagens diversas eram estampadas por meio de um clichê fabricado em São Paulo. As matrizes, datilografadas, eram colocadas em um equipamento chamado “caixa de typo” para formarem a matéria desejada. Acompanhando o crescimento tecnológico O Atibaiense, em 1996, substituiu os linotipos por impressoras off-set. Em 2001, saiu a primeira edição colorida.

De acordo com Luis Wágner Bassetto, proprietário ao lado do irmão Carlos Alberto Bassetto, o jornal teve raros momentos de dificuldades e, consequentemente, nunca deixou de chegar às bancas. “O jornal sempre foi líder de mercado. Desde 1901 nunca deixou de circular, nem durante as guerras mundiais, crises financeiras ou mudanças de governo”, afirma. Segundo o diretor o fato de a empresa sempre ter se mantido estável, facilitou que o jornal ganhasse credibilidade. ” Contribuímos com informações por mais de um século, auxiliando a formação de opinião dos atibaienses de forma digna e cumprindo seu papel de despertar a reflexão dos incontáveis leitores”, conclui.

Localizada no bairro Nova Aclimação, em Atibaia, a sede do jornal – onde ficam todos os departamentos (redação, administrativo, comercial, diretoria, impressão e distribuição) – conta com sete funcionários fixos e três jornalistas que atuam como freelancers. “Hoje, por conta das dificuldades financeiras, trabalhamos com equipe reduzida. Porém já tivemos 22 funcionários quando a produção era praticamente artesanal”, salienta Bassetto.

O Atibaiense está nas bancas de Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Piracaia e Nazaré Paulista duas vezes por semana, às quartas-feira e aos sábados. Em Atibaia concorre com os jornais Atibaia Hoje e Jornal da Cidade e leva certa vantagem nas vendas segundo a direção. Além do impresso os atibaienses podem acompanhar as notícias de Atibaia no site, que é abastecido com os textos publicados no impresso. “Sempre buscamos novidades e, por isso, investimos em nosso site e nas redes sociais. Hoje em dia não podemos ficar parados. Ainda mais porque somos um jornal tradicional e centenário. Como hoje a tendência é virtual, estamos nos adaptando para no futuro continuarmos liderando o mercado”, afirma Luis Wágner Bassetto.

Irmãos Basseto recebem homenagem pelos serviços prestados

Irmãos Basseto receberam homenagem pelos serviços prestados. (Foto: O Atibaiense)