Trajetória da Infância mostra fragilidades

… Preservar a criança é um dos maiores desafios da sociedade contemporânea …

Infância no quilombo

Crianças brincam em Quilombola. Fonte: ESPN-UOL

Matheus Godoy

Ao analisar a produção histórica existente sobre a infância, pode-se afirmar que somente após o século XIX houve uma preocupação com a criança no Brasil e no mundo. Essa falta de registro histórico sobre a infância demonstra a incapacidade do adulto de ver a criança em uma perspectiva histórica, abordando temas e problemas relacionados a ela. De acordo com Ariès (1973), a vida era relativamente igual para todas as idades, ou seja, não havia muitos estágios e os que existiam não eram tão claramente demarcados.

Segundo estudiosos, isto não significa negar a existência biológica das crianças, mas reconhecer que antes do século XIX a sociedade não admitia a existência autônoma da infância como uma fase diferenciada da vida humana.

Segundo Ariès (1973), durante a Idade Média, os adultos compartilhavam os mesmos ambientes e situações que as crianças. Pode-se afirmar que foi na Idade Média que as “Idades da Vida” começaram a ter importância. Durante a Idade Média, então, existiam seis etapas de vida. As três primeiras, que correspondem à 1a. idade (0 / 7 anos), 2a. idade (7 / 14 anos) e 3a. idade (14 – 21 anos), eram etapas não valorizadas pela sociedade. Somente a partir da 4a. idade, a juventude (21 – 45 anos), as pessoas começavam a ser reconhecidas socialmente. Ainda existiam a 5a. idade (a senectude) e a 6a. idade (a velhice), dos 60 anos em diante. Tais etapas alimentavam, desde esta época, a ideia de uma vida dividida em fases.

A partir do século XIX, as primeiras concepções de infância tornaram-se reais, embora ainda pequenas. Os adultos passaram a se preocupar com a criança, enquanto ser dependente e com necessidade de proteção familiar e social. Além dos cuidados biológicos, viu-se necessário oferecer educação e disciplina às crianças, a fim de transformá-las em adultos socialmente aceitos.

Hoje, as gerações vivem divididas em diversos espaços exclusivos. É nítida a separação das pessoas por faixas de idade. Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos ocupam lugares reservados.

Com a velocidade em que a sociedade capitalista se desenvolve, nota-se, nos dias de hoje, que as crianças têm cada vez menos tempo para ser criança. Imaginar, sonhar e brincar são atividades distantes da infância. Nos anos 90 as crianças viviam nas ruas, brincando de esconde-esconde, polícia e ladrão, bolinha de gude, pipa, peão, bola, bexiga d’água, corda e outras brincadeiras. Essa era a diversão da época. Hoje, o cenário é muito diferente de 20 anos atrás. As crianças não ficam mais nas ruas, pelo temor da violência. Trancadas dentro de casa, são expostas a desenhos violentos, à publicidade infantil incisiva, à erotização, aos aparelhos tecnológicos e ao ambiente virtual. Como consequência, nota-se o crescimento de crianças violentas e com novas doenças psicossomáticas, a abreviação do desenvolvimento sexual, o aumento da obesidade infantil, o consumo desenfreado de produtos tecnológicos e o isolamento social. Interessante pensar que a tecnologia transpõe barreiras e fronteiras físicas, ao passo que isola o usuário dentro de um quarto. Aliás, o mundo virtual tem se tornado um atrativo muito grande para crianças e pedófilos.

Dados da UNICEF (2015) apontam um cenário desolador em relação à violência contra crianças e adolescentes no Brasil. A cada dia, 129 casos de violência psicológica e física, incluindo a sexual, e negligência contra crianças e adolescentes são reportados ao Disque Denúncia (100). Esse quadro pode ser ainda mais grave se levarmos em consideração que muitos desses crimes nunca chegam a ser denunciados. Esse cenário evidencia a velocidade com que as coisas ocorrem, inclusive a violência.

Já a publicidade infantil tão incisiva em uma sociedade sem tempo e espaço, é outro fator relevante na transformação da infância moderna. Dados do Taylor Nelson Sofres/InterScience — Informação e Tecnologia Aplicada e do Instituto Alana dão conta de que as crianças brasileiras influenciam 80% das decisões de compra de uma família. Curiosamente, tais decisões vão desde eletrodomésticos, carros e alimentos, até a compra do apartamento. Reconhece-se ainda que a mídia televisiva exerce expressiva influência quanto à mudança atual do comportamento das crianças que são seduzidas pelas propagandas a serviço de empresas de bens de consumo.

Outro problema crescente da infância atual é o contato precoce das crianças com conteúdos sexuais e eróticos, o que acarreta em transtornos no desenvolvimento sexual do indivíduo. O psicólogo e terapeuta sexual Angelo Monesi, explica essa questão. De acordo com ele, o que hoje em dia se observa é que algumas fases do desenvolvimento sexual estão sendo abreviadas por conta do excesso de erotização na mídia. As crianças estão sendo expostas cada vez mais cedo a conteúdos sexuais das quais, muito provavelmente, não estão preparadas para nem interagir, nem entender.

Diante de todas as questões é inegável assumir que a ternura da infância tem sido extinta em uma sociedade capitalista que vive o conceito de 24/7, ou seja, a velocidade na contemporaneidade, somada ao excesso de informações, serviços, compromissos e atividades durante 24 horas por dia, nos sete dias da semana. Cabe-nos trabalhar e imprimir esforços para que todos os problemas atuais não matem a infância, fase da vida tão fundamental para formar os cidadãos de amanhã. Que tipo de pessoa estamos gerando?

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